Alguns ecos...

Alguns ecos: a maioria destes textos é tecida de matéria prima que Laura me oferece, e também das várias leituras a que ela me induz, mas que muitas vezes, introjetadas, não consigo nem mais citar a fonte. Contudo todas elas podem e devem ser acessadas por meio dos meus Gadgets.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Capítulo II: Aprendendo o beabá

No dia seguinte ao parto, eu olhava para Laura e não cabia em mim de contentamento: aquele bebezinho era todinho meu!!! Tinha a sensação de que minha vida seria dali pra frente um eterno brincar de casinha. Laura permaneceria ao meu lado por um período INDETERMINADO (minha vontade era escrever PARA SEMPRE, mas como dizem que filho a gente cria para o mundo, contentarei-me com um "indeterminado")! Pelo menos por longos oito meses (quer dizer, eu pensava que seriam longos, mas já se passaram dois corridésimos!!), estaríamos grudadas: seis da licença, mais duas férias que deixei acumular pensando em dedicá-los à maternidade.

Ao deixar a Casa de Parto, nós não sabíamos ao certo para aonde iríamos. Nossa casa continuava em obras. Não queria me hospedar com parentes, nem amigos. Queria viver plenamente aquele começo de vida nova, na quietude da minha solidão (claro, para “minha solidão”, leia-se eu, Laura e Wilson). Como eu e ele não temos mãe, nem tia, irmã ou prima mais velha por perto, desde o início sabíamos que não haveria a quem recorrer, nenhuma ajuda externa, nenhum aconselhamento sequer. Sabe como é, né? Avós são excelentes para aqueles momentos em que as novas criaturinhas não param de chorar. Têm sempre uma receitinha milagrosa, uma simpatia, um jeitinho safo de carregar... Mas, pra falar a mais pura verdade, quem me conhece sabe que eu jamais me adaptaria a este esquema “dependência familiar”. É aquela história, assombração sabe pra quem aparece, e pra quem não deve aparecer também. O que vejo várias amigas contar é que por mais que mães e sogras amem e tenham a mais boa vontade acabam criando atritos (inclusive entre elas mesmas) por divergências de opinião. E angu mexido com mais de uma colher de pau acaba desandando.

Ah, neimmmm! Prefiro fazer as coisas do meu jeito a ter que ficar discutindo com pessoas, bem intencionadas (outras nem tanto assim) a me dizerem como devo agir. Sempre fui de quebrar a cabeça e, muitas vezes, a cara também. Mas sempre dei muito valor a tudo o que aprendi e conquistei com muito custo, e, porque não, um bocadinho de dor! Se não há ninguém pra ajudar, o melhor é que ninguém há também pra atrapalhar. Por isso, nossa gravidez e a vida pós-chegada da Laura foram muito bem planejadas. E olha que muita coisa saiu do script, como a famigerada obra (leia-se, o gerenciamento dos pedreiros) e a falta de um local adequado pra ficar nos primeiros dias. Mas, afora isso, basicamente eu e Wilson sabíamos que iríamos ter que dar conta de todo o serviço da casa, além de cuidar de um bebê recém-nascido, diga-se de passagem, arte sobre a qual éramos ambos totalmente inexperientes. Combinamos, desde o início, que ele ficaria por conta do lar e eu me dedicaria cem por cento à Laura, pelo menos nos primeiros momentos. É óbvio que, na realidade, em algumas tarefas eu tenho que ajudá-lo, como passar as roupinhas dela, às vezes, lavar um banheiro, correr um pano na casa, fazer comida. Mas este é um assunto que merecerá um post inteirinho pra ele, um capítulo hiper, super, mega especial: o nosso planejamento familiar.

Bebê a bordo sem bula ou manual

Durante toda a gravidez, eu estudei muito sobre o assunto. Lia artigos acadêmicos, blogs, sites. Sabia a cada semana (dia e, se bobeasse, hora) o que se passava com Laura em seu desenvolvimento. Termos científicos, como tocólise, lanugo, mecônio, e outros, faziam parte de um vocabulário familiar. Contudo, a vida do bebê extra-uterina, eu, protelei e, confesso que me esqueci de pesquisar. Tudo seria pra mim, pra nós, a mais assustadora, mas também a mais instigante, novidade. Noites antes do nascimento, ficávamos imaginando o que faríamos quando, felizes da vida, chegássemos com aquele “embrulho” em casa.

Bem, neném não vem com manual (frase mais que batida, mas deu vontade de colocar). Se viesse, eu leria tudinho (adoro ler manuais de eletro-eletrônicos e bulas de remédio). Mas acho que de nada adiantaria, pois, pelo muito que ouvi dizer, cada criança é de um jeito e cada mãe e pai sabe a melhor maneira de lidar com sua cria. Basta estarem dispostos a ouvir, observar, serenar, agir com a cabeça, mas principalmente, com o coração. Imagina, Laura passara nove meses dentro de mim! Eu brinco que ela é meu pedacinho de carne! E mãe tem o instinto para guiá-la. Saber como pegar, aconchegar, prover, alimentar...? Há meses vínhamos treinando nossa forma de comunicar. E, naturalmente, nós já tratávamos Laura assim, como se deve, um ser dotado de inteligência, desejos e necessidades. Conversávamos muito com ela ainda na barriga e explicávamos toda a nossa situação. Eu pedia que ela fosse boazinha. Que chorasse quando tivesse que chorar, mas que já viesse sabendo o tipo de mãe e pai que iria encontrar.

No livro Nossos Filhos são Espíritos (do qual falei no Relato de Parto), o autor desenvolve um raciocínio interessante: ele diz que o bebê, quanto mais novo, tem uma enorme capacidade de entendimento. Segundo ele, para suportar as limitações do corpo ainda em formação, o espírito traz vivas as lembranças do mundo espiritual, o motivo de estar na Terra e o seu propósito encarnatório, sua bagagem moral e intelectual. E, à medida que vai desenvolvendo o corpo, inversamente, vai se tornando “mais criança”, para, então, aprender tudo de novo. Nós, Wilson e eu, acreditamos nisso. E, cotidianamente, Laura tem nos provado o quanto é capaz de atender aos nossos pedidos e compreender nossas limitações.

É claro que o recém-nascido humano depende dos cuidados dos pais, e ela absolutamente não é diferente. Muito mais que cuidar, é preciso ser mãe e pai. E isso requer muita disponibilidade, física e emocional. É preciso muito afeto, mas também muita disposição e dedicação. É lógico que para o bom desempenho da minha função eu tenho precisado de consultores, como jovens e velhas amigas, cunhadas, médicos, livros, sites, blogs, minhas queridas listas de discussão... Mas tenho a consciência de que, por mais que não sejamos experts, eu e Wilson nos preparamos para nos doar à Laura. E isso é o que mais conta: nossa disposição em ouvi-la, estudá-la, compreendê-la e amá-la. Não pretendemos terceirizar nossa missão.

O caminho tem sido árduo (e isso inclui perder o jogo do Brasil na Copa do Mundo, caso do Wilson que ficou lavando roupas da Laura, enquanto eu a amamentava ou brincava, pois ela exigiu o tempo todo a minha atenção; invariavelmente comer comida fria; tomar banho depois da meia-noite; ficar horas com vontade de fazer xixi...), mas muito compensador. Estamos cansados, mas não exauridos. A cada dia, Laura nos renova. É um mundo mágico, gigante, e estamos apaixonadamente dispostos a vencer cada etapa, cada dificuldade. E, como já disse, é sobre cada uma delas e sobre essas primeiras descobertas que falarei nos próximos post, e irei, assim, tecendo este blog.

Quarto Trimestre de Gestação

A primeira coisa que descobrimos antes mesmo de sair com Laura da Casa de Parto é que, assim como todos os bebês, mesmo com 38 semanas de gestação, ela não nascera pronta! De todos os mamíferos, o bebê humano é o único que, para conseguir sair do ventre da mãe (bípede e, por isso, com a bacia mais estreita que os quadrúpedes), precisa nascer antes de atingir toda sua maturidade. Seria impossível a expulsão natural, pela vagina, por causa do desenvolvimento do perímetro cefálico, se ele nascesse, por exemplo, com doze meses de gestação.

Por isso, em sua maioria, os nossos “fetos extra-uterinos” sentem muito frio (ainda não são capazes de manter a temperatura ideal), espirram e tossem muito (estão a amadurecer o pulmão), sentem cólicas (por falta de amadurecimento do sistema digestivo), precisam ser colocados para arrotar, e vêm com uma série de “defeitos de fábrica”, como Refluxo Gastroesofágico (o que responde pelas famosas golfadas), Reflexo de Moro (pequenos espasmos causados por sustos), Reflexo Gastro-Cólico (uma tal diarréia benigna, que é o esvaziamento do intestino tão logo o estômago recebe novo alimento), além de precisarem chorar para se comunicar.

Quase todos esses nomes eu e Wilson fomos descobrindo à medida que Laura ia nos apresentando os sintomas. Dessa lista toda, escapamos das cólicas (que ela nunca teve, Graças a Deus) e do choro (minha bebezinha é uma anja, ela quase não chora, apenas solta uns resmungos graves e bravos quando não conseguimos captar de imediato sua mensagem, mas é só nos conectar e ela logo sorri!).

De fato, o comportamento dos recém-nascidos é muito variável e depende de vários fatores,
como personalidade, experiências intra-uterinas, o tipo de parto vivenciado, fatores ambientais, incluindo o estado emocional dos pais e, principalmente, o estágio de maturação que ele nasce. E eu acredito que ter estado sozinha com Laura desde o primeiro dia foi positivo no processo desse reconhecimento. A ocasião fez o ladrão e como toda mamífera tenho sabido como lamber minha cria. Foi por meio dessas peculiaridades que acabei descobrindo, por exemplo, a Amamentação por Livre Demanda, a Cama Compartilhada, o uso das Fraldas de Pano e o Colo como Extensão do Útero. Para compreender tudo isso, foi preciso rever conceitos e, principalmente, libertar-me dos preconceitos. Mas, como tudo isso foi fruto da experiência, tenho me sentido segura das minhas escolhas, certa de que poderei revê-las e mudar de rumo, guiada pelas necessidades de Laura.
No próximo post, falaremos sobre como cheguei e porque optei pela Amamentação por Livre Demanda. Até lá.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Capítulo I: Relato de Parto Parido


A Encomenda


Sempre quis muito ser mãe. Morria de curiosidade para saber como seria gerar e sentir um ser humano crescer dentro de mim. Meu maior sonho era ser digna de botar uma criança no mundo, e sentir o peso da responsabilidade de educar, de preparar para a vida, mas mais que isso, era poder ser capaz de construir uma família amorosa, respeitosa, unida, justa e feliz (em muitos aspectos bem diferentes das experiências que vivi), tendo como alicerce a ética, a moral e os valores do Cristianismo. Seria o início de um novo ciclo, a oportunidade de rever erros do passado e o propósito de mudar o rumo de uma história que insistia em se repetir.
O meu maior medo era descobrir algum problema físico que me impedisse a maternidade. Quando, em 2003, soube de um teratoma no ovário quase morri de tristeza. Foi apenas em dezembro de 2007 que criei coragem para fazer a cirurgia de retirada, mas plena de confiança em Deus. Um ovário apenas seria suficiente para gerar tantos quantos fossem os filhos que Ele achasse por bem me confiar.
Importante dizer que, claro, ao meu lado, além da fé, esteve sempre presente também meu marido querido, que nessa época era ainda apenas namorado. Já tínhamos planos de casamento (desde o primeiro dia em que assumimos o nosso namoro), bem como de formar uma linda família. Viessem os filhos de nós mesmos ou fossem eles adotados. Amaríamos com a mesma intensidade.
Logo que decidimos marcar a data do casamento (que seria em julho de 2009), começamos a nos organizar para ficarmos grávidos. Fizemos exames pré-nupciais, e eu dei início a exames pré-natais (mesmo antes de conceber a cria!). Tomei vacinas, mudei a alimentação, suspendi medicamentos, álcool e tudo o que não fosse saudável à geração e à gestação.
Exames feitos e nova disciplina admitida, tratamos logo de iniciar as tentativas. Pensei que levaria uns dois anos para engravidar, por isso começamos as tentativas em janeiro de 2009, mesmo sabendo que o casório seria para julho. Foi batata! Já na primeira! Não precisou mais que vinte dias para eu descobrir que estava grávida!!!!! Sabe o que isso significava? Eu estava grávida. G.R.Á.V.I.D.A. Engraçado, embora sonhasse tanto com isso, jamais imaginaria que eu pudesse ficar grávida.
Bem, vou resumir essa parte. Buscamos juntos o resultado que, a princípio, nos assustou muito, pois queríamos engravidar, mas não exatamente assim, de imediato. Pensamos em iniciar as tentativas, mas contando com os erros de mira. Esperávamos engravidar mais próximos da data marcada para nos casar, que era 18 de julho. O que importa é que, tratamos logo de acreditar no que o papel nos dizia – mais de 50.0000 MUIs, hehehehe, eu não estava simplesmente grávida, eu estava gravidíssima! – e decidimos antecipar a data do casório, pois eu pretendia ainda ser uma grávida esbeltíssima dentro do meu belo vestido de sereia. Sei que no fim das contas me conformei em casar de barriga mesmo. Marcamos o casamento para 10 de maio, dia das mães, quando eu estaria de quatro meses. Assim comemoraríamos as duas datas. Fizemos convite pensando nisso. Divulgaríamos, numa só peça gráfica gravidez e casório, necessariamente nesta ordem.
Não contávamos com um acidente de percurso. Com nove semanas de gestação, eu sofri um aborto espontâneo. Foi horrível. Fomos fazer um ultrassom e a médica simplesmente olhou pra mim e disse que não havia batimentos cardíacos do feto. Enfim, sofremos o que tínhamos que sofrer, e seguimos em frente com os preparativos do casamento. Pra falar a verdade, juro que nem sofri tanto, pois eu tinha a mais absoluta certeza que engravidaria de novo e muito em breve. Eu dizia que a mim bastava ter tido a prova de que a fábrica funcionava. Se funcionara uma vez, haveria de funcionar mais tantas quantas desejássemos e Deus nos permitisse. Tinha a convicção de que o aborto acontecera simplesmente porque o ovo não havia sido bem formado, o que não impediria que meu filho (ou filha) voltasse em um outro corpinho que haveria de se formar com perfeição.


Coração de Mãe não falha
Nossa cerimônia de casamento foi linda, linda!!! Do jeito que sonhamos. No final de julho, decidimos tentar novamente. Bem, o Wilson não queria tentar naquele momento, pois o mundo enfrentava a crise da gripe suína com a qual várias grávidas morreram. No dia mesmo em que fizemos a Laura, tivemos uma discussão durante o dia. Ele queria esperar um tempo a crise passar e eu disse que seria naquele dia que tomaríamos uma decisão que iria mudar nossas vidas para sempre. Convenci. Claro, no final da "conversa" foi essa a vontade dele! No dia 6 de agosto de 2009, fizemos a Laura!!!!
Naquela mesma semana comecei a sentir palpitações misturadas a ondas de frio e de calor. Claro que não comentei com mais ninguém a não ser com o Wilson: eu tinha certeza de que estava grávida. A sensação era a mesma da primeira vez em que engravidei. Uma felicidade leve e vaga, qualquer coisa que me fazia suspirar... Marquei uma consulta com meu GO e solicitei um pedido de exame de sangue. Ele não acreditou em mim. Disse que ainda que eu estivesse grávida não daria para perceber os sintomas. Dias depois ele reviu suas palavras e deu crédito às minhas palpitações, o coração de mãe não se enganara.
Foi no dia 17 de agosto, que peguei o resultado: 267 MUI/ml. Eu ainda nem dera pelo atraso da menstruação, mas já sabia, eu estava grávida! A minha gestação foi maravilhosa. Fiz tudo o que os manuais mandavam. Wilson me levava à cama, todas as manhãs, um prato fundo lotado de frutas com cereais. Comia verduras variadas, legumes, ferro, cálcio e tudo o que fosse necessário. Bebia rios e rios de água. Fiz um ultrassom a cada 15 dias durante toda a gravidez e acompanhei cada milímetro do crescimento da minha filha dentro de mim.
Definitivamente, eu era a pessoa mais feliz e a mulher mais bonita deste mundo!!!!
A escolha pelo Parto Natural

Tudo começou em 2008, quando assisti pela televisão a um programa de auditório, desses beeem populares, que trazia ao centro do debate histórias de mulheres parideiras. Todas haviam tido seus filhos de Partos Domiciliares e, no palco, exibiam suas crias mais que saudáveis, espertas, felizes e hiper-calmas.
Alguns vídeos caseiros foram mostrados e era lindo ver como elas dedicavam horas a, literalmente, esperar pela chegada do bebê (essa era a impressão que eu tinha, mais tarde saberia o quão laborioso é para mãe e filho o Trabalho de Parto), a despeito da dor que sentiam, com a mais pura expressão do prazer estampada em suas faces.
Achei tudo muito emocionante e fiquei pensando se um dia eu seria merecedora daquilo tudo e se teria coragem... Mas apenas a poucas semanas do meu parto, tudo isso veio a se tornar uma idéia fixa, uma quase certeza, eu diria.
Desde o quarto mês de gestação, eu praticara Yoga (resgatando uma velha prática dos tempos de solteira) e esses momentos eram para mim oportunidades sagradas de contato íntimo com meu bebê. Durante a meditação nossa sintonia era muito forte e eu percebia que estávamos de fato plugadas em uma mesma energia, com desejos e objetivos semelhantes: sabíamos que cinco meses separavam o encontro dos nossos olhares e que este momento tão esperado seria, para nós, inesquecível, mas, fundamentalmente, maravilhoso. Cuidaríamos para que fosse da forma mais perfeita possível.
Além da oportunidade desse encontro de almas, a Yoga trouxe à minha vida a presença da Virgínia, professora que, mais que uma mestra, mostrou-se uma grande amiga, acolhendo, dando carinho, conselhos e, o mais valioso, a oportunidade de adquirir mais informações e conhecimento. A leitura dos livros que ela me emprestou foi fundamental, tanto para me sentir completa no processo de gestar uma criança, como na escolha do processo que traria Laura à luz da vida.
O livro do Dr. Emerson Godoy – Gestação, Parto e Maternidade – uma visão holística- introduziu-me no mundo maravilhoso do Trabalho de Parto. Nele, o ginecologista, obstetra e homeopata descreve cada momento pelo qual passa o corpo de qualquer mulher. E ele descreve de um jeito que eu ficava me perguntando por que eu nunca antes ouvira falar daquilo. A maioria das mulheres da minha família tivera seus filhos por cesariana com dias e horas marcados há pelo menos oito meses de antecedência, com direito a um SPA no dia anterior à RETIRADA do bebê. E eu sequer imaginava que, muitas vezes por livre escolha, elas abdicavam de momentos sagrados por pura ignorância, falta mesmo de informação. Como eu fui privilegiada tendo acesso a esse universo esclarecedor de exemplos e palavras!
Outro livro com o qual Virgínia me presenteou foi – Origens Mágicas Vidas Encantadas – de Deepak Chopra. Trata-se de um guia holístico que analisa todo o processo de concepção, do ponto de vista fisiológico, psicológico e espiritual. E, por fim – Nossos Filhos são Espíritos – de Hermínio Miranda, foi uma indicação da amiga Glenda, que, sem ter a menor noção, contribuiu para que o meu parto fosse natural. Este livro espírita traz, dentre outros, relatos de regressões psicológicas, em que as pessoas contam o quão difícil é para o espírito o momento da encarnação, da chegada à Terra, da passagem mesmo pelo canal de parto, a dificuldade de, pela primeira vez, ver a luz desmedida das salas de cirurgia, de lidar com a frieza dos profissionais presentes e nem um pouco envolvidos pela emoção do momento.
Sem querer, fui elaborando o meu plano que, só muito mais tarde, saberia que, de fato, tratava-se de um Plano de Parto, uma carta de navegação, um documento que deveria ser seguido à risca em respeito à minha vontade, ao meu protagonismo na maternidade, à minha independência, à minha natureza de mulher. Ele incluía luz de velas; a presença apenas de pessoas queridas; o Wilson, claro, atuante do nosso lado durante todo o trabalho, da admissão ao nascimento; a liberdade para caminhar, deitar, agachar, pular, dançar, respirar, alongar; o uso da água da banheira e do chuveiro como anestésico natural; o consumo de bebidas e alimentos com alto teor de glicose e carboidratos; a utilização de objetos pessoais, como música, flores e incensos (detalhe: o dia em que eu arrumava a minha mala e a do meu bebê, a moça que dava limpeza na minha casa disse que nunca tinha visto alguém levar aquilo tudo para dar à luz, que eu parecia mais estar indo para um retiro espiritual que pra uma maternidade); a infusão intravenosa apenas se assim eu desejasse; o monitoramento intermitente do feto pela enfermeira, mas sem aqueles aparelhos eletrônicos. No momento da expulsão, eu queria estar de cócoras ou sentada na água. Minha determinação era de que o bebê fosse colocado imediatamente no meu colo e amamentado assim que possível, antes mesmo do clampeamento do cordão umbilical, que se daria apenas depois que parasse de pulsar. O pai seria o único autorizado a cortá-lo. Por fim, eu exigia ser informada de cada procedimento.
Meu parto não seria uma questão meramente fisiológica, mas social, cultural e, principalmente, espiritual. Ele seria um ritual. Um ritual de amor, de emoção, de carinho, de trabalho e de iniciação. Eu diria não à raspagem dos pêlos pubianos (tricotomia), à lavagem intestinal (Enema, Fleet-Enema, Enteroclisma), ao corte no períneo (epsiotomia). Não à medicação para alívio da dor e para aceleração do parto, como ocitocina, ao uso de estribo ou perneiras. Não queria ser tratada como uma doente, por isso, não desejaria estar em um hospital.
Nunca havia entrado na minha cabeça a opção dos médicos pela posição horizontal para o momento da expulsão. Mesmo leiga no assunto, ficava me perguntando se em pé, ou agachada, a própria força da gravidade não cuidaria de fazer a sua parte. Imagina! Se grávida não consegue dormir de barriga pra cima, por causa do peso do útero sobre a veia cava, imagina se posicionar assim e ainda fazer força num momento de dor! Como diria minha avó, brada os céus a onipotência dos médicos que desde a época da Primeira Guerra Mundial tratou de sedar as mulheres com morfina e escopolamina, botá-las em pose ridícula com estribeiras e obter de vez o controle de toda a situação. Industrializaram o parto.
Ainda no século XXI, as maternidades oferecem um serviço baseado na presença de obstetras, anestesistas e pediatras 24 horas por dia, munidos de suas ferramentas de incisões, suturas e monitoramentos, além de regras, rotinas e protocolos. Até o chamado “Parto Normal” é protocolar: a mulher recebe ocitocina sintética intravenosa, enquanto o bebê é monitorado eletronicamente; é entubada para esvaziar a bexiga; recebe uma lavagem intestinal; seguida de uma peridural; durante as últimas contrações, seu períneo é cortado; no momento da expulsão, uma enfermeira debruça sobre suas costelas; o bebê, nascido sob fortes holofotes e ares-condicionado, leva uma palmada, é separado da mãe e levado pra baixo de uma torneira, torturado pelo frio do ambiente e pela linha de montagem daqueles profissionais. É aspirado, pesado, medido, vacinado e, se deixarem, até alimentado. E essas são algumas das diferenças entre o chamado Parto Normal e o Natural. Diferenças que nortearam minhas escolhas. Escolhas que foram nascendo aos poucos. Construídas a partir de muita leitura, muita pesquisa. Um processo intenso e solitário. Um belo dia, na 35ª semana de gestação, um amigo me perguntou pelo MSN se eu faria o meu parto como o Dr. Marco Aurélio. ???? "Quem é Dr. Marco Aurélio?" Ele me respondeu que era "um médico 'natureba' e que todas as grávidas da área da cultura de MG tinham filhos com ele e que como eu era 'atriz e jornalista da área da cultura' provavelmente faria também esta opção, influenciada por meus pares", rsrsrs. Confesso que me chamou muito a atenção e pedi a ele que falasse mais sobre esse médico. Ele não tinha mais informações, mas me enviou um link com o endereço do Núcleo do Bem Nascer. Foi apenas neste momento, nos últimos minutos do segundo tempo, que eu descobri que eu não estava sozinha em minha caminhada.
No mesmo dia devorei todas as informações do site. Mandei um email, enlouquecida, para o Dr. Hemmerson (médico que faz parte deste núcleo de obstetras que optam pelo Parto Natural e Humanizado) perguntando se ele atendia pelo meu plano de saúde. Eu já havia falado com o meu médico sobre a possibilidade do parto de cócoras. Ele riu na minha cara e disse que se eu quisesse mesmo me botaria agachada sobre a mesa de cirurgia e faria meu parto como se faz com índio. Mas, depois, mais respeitosamente, disse que não me acompanharia durante todo o TP, por opção dele, já que se encontrava próximo de se aposentar e não tinha mais disposição para isso. Enfim, foi sincero, o que em muito me ajudou.
Imagina, trocar de médico àquela altura poderia ser loucura! Mas graças a Deus, para alívio e surpresa, o Dr. Hemmerson me respondeu no mesmo dia. Disse que estaria à minha disposição, no dia seguinte, no consultório dele para uma conversa. E lá fui eu ainda meio sem acreditar na minha boa-ventura! Como não havia preparado uma poupança, não seria possível realizar o parto com ele ou com qualquer obstetra do Núcleo, mas saí de lá muito confiante. As dicas dele foram valiosíssimas. Ele atendia também no Hospital Sofia Feldman que é referência para toda América Latina em Partos Humanizados. Trata-se de um hospital do SUS, do qual já tinha ouvido falar bem, mas também muito mal, pois lá, sempre optam pelo Parto Normal, Cesárea só em caso de risco (as referências do “mal” vêm sempre de mulheres que desejariam simplificar o nascimento dos seus filhos com uma Cesariana). No Sofia, as mulheres têm ainda a opção do Parto Natural, que acontece na Casa de Parto anexa à maternidade. Lá, os partos são sempre sem analgesia artificial e sem qualquer método de indução, além de dispensarem a equipe médica. São realizados com a presença de enfermeiras obstetras e não há pediatras para separar a criança da mãe após o nascimento. Ou seja, o parto é, de fato, natural.
Bem entre conversas e discussões, com vários médicos e enfermeiras, descobri que pelo plano de saúde eu jamais realizaria o meu sonho. Ouvi da própria boca de um médico que se dependesse do valor pago pela Geap eu, com certeza, teria minha filha por meio de cirurgia. “Ninguém está disposto a esperar mais que as sete horas de plantão por um trabalho de parto, para no final receber seus R$300,00 ou R$400,00. Faz-se várias cesáreas em uma mesma noite, cumpre seu trabalho e no dia seguinte ainda está livre e bem disposto para atender às consultas particulares em seu consultório”. Bem, isso me apavorou. Como me disse uma amiga enfermeira obstetra, “domingo e feriado então não há útero que se dilate”. É, mulher nenhuma tem “passagem”.
No final de semana seguinte tratei de juntar o Wilson e lá fomos conhecer a Casa de Parto do Sofia Feldman. Justamente naquela semana um colega dele, por coincidência ou tramas do destino, narrara-lhe a feliz história do nascimento de sua filha naquele local.
Chegando lá, meu coração até tremeu de contentamento. Fomos tratados com enorme carinho, respeito e consideração. Aquele sim era um ambiente propício ao momento mais importante da vida de uma família. Era uma casa. Ansiosa, eu perguntava a todas as enfermeiras o que era necessário para ser admitida, se corria o risco de não encontrar vaga, se o único quarto com banheira era disputado. A enfermeira que cuidava de uma mulher que acabara, linda, de ter seus gêmeos de Parto Normal e, tranquilamente, tomava suco com um pedaço de pão, ali mesmo, no corredor do hospital, vendo minha emoção disse: “se você quiser, você terá sua filha do seu jeito, mas tem que querer mesmo, do fundo do seu coração”.
E eu queria tanto, tanto, mas era um desejo tão grande, imenso, enorme, que fazia de mim - que sempre fora uma das mais inseguras criaturas do mundo - ter a convicção de que tudo sairia como o esperado. E eu esperei, esperei com minha obstinação, que todos conhecem, a obstinação que move todos os meus atos. Neste caso, eu sabia que não teria muito controle, mas tinha a certeza de que o meu desejo por si poderia agir, que Deus estava do meu lado, que meus mentores espirituais preparavam o meu caminho e, o mais importante, que Laura tinha o mesmo desejo que o meu. Assim seria feito.
Para ser admitida na Casa de Parto do Sofia, o universo tem que conspirar. A gestação tem que ter sido impecável: nenhuma intercorrência, nenhuminha infecção urinária sequer, pressão arterial de criança; os exames têm que estar todos em dia; o bebê tem que nascer a termo, ou seja, ter chegado pelo menos à 37ª semana; o Trabalho de Parto tem que estar adiantado (com pelo menos quatro cm de dilatação); tem que haver vaga (Se bem que me disseram que esse não seria o meu maior problema, pois toda gestante é avisada de que lá não se pode optar pela analgesia, e que, optando pela peridural, o parto é realizado na maternidade, no hospital mesmo em que a Casa de Parto é anexa. Como a maioria não quer parir ao natural, acaba optando pelo Parto Normal, na maternidade e a Casa de Parto acaba ficando livre para as "naturebas" de plantão).
E foi sob essa expectativa que passei o resto dos dias da gestação. Para distrair, dedicava as noites lendo relatos de Partos Naturais, e me debulhando em lágrimas a cada vídeo a que assistia. Isso me alimentava. Tentava convencer o Wilson a assistir a eles também, pois tinha medo d’ele não saber se comportar na hora H. Se pudesse, faria uma leitura dinâmica pra ele de todos os livros e artigos que li. E logo eu, que tudo controlo, que tudo quero prever e planejar, me vi ali, no fim de uma gravidez à mercê do tempo e da boa sorte.

 
O dia P

Sabia que o dia estava se aproximando, mas torcia para que a gestação se estendesse para depois da 40ª semana. Eu estava com uma mega obra em casa. Por que toda grávida inventa de fazer reforma meses antes de o bebê chegar? Foi assim com a maioria das minhas conhecidas e eu havia jurado que não faria isso nunca, mas não consegui escapar. Parece sina. Laura ainda não tinha quarto para habitar, muito embora seus móveis haviam sido comprados há dois meses, e eu torcia para que ela esperasse ficar tudo arrumadinho. Sonhava em ver o quartinho todo pintado, os móveis armados, as roupinhas lavadas, passadas, guardadas e as malas prontas!!!! Mas alguma coisa me dizia que isso não iria acontecer antes que ela chegasse.
Bem, tratei de lavar e passar todas as roupinhas dela na casa do meu sogro, pois na minha não havia a mínima condição, existiam mais de dez pedreiros trabalhando em meio a muito barro e confusão. Eu lavava e passava sentada, pois a barriga já estava grande e as contrações de Braxton eram constantes. Ah, um detalhe: dias antes, quando tive uma briga com o engenheiro que construiu a minha casa, coincidentemente, eu comecei com essas contrações. O médico receitou um remédio para intimidá-las. Relutei muito antes de começar a tomar, pois queria que tudo seguisse o seu curso. Hahahahaha, um belo dia, quando fui tomar o remédio, percebi que eu estava usando o envelope errado. Durante muito tempo eu tomara Ácido Fólico pensando ser Nifedipina. Kkkkkkkkk. Laura nasceria naturalmente, na sua hora. Mas eu sentia que ela não estava mesmo muito disposta a esperar. Eu e o Wilson conversávamos com ela e pedíamos que adiasse seus planos o máximo que pudesse, para encontrar tudo do jeito que sonhávamos lhe ofertar.
Na 36ª semana, arrumei nossas malas. Na 37ª já havia deixado tudo encaminhado no trabalho. A cada dia, despedia-me dos colegas e dizia: “Não sei se volto amanhã”. Um sentimento dúbio habitava meu coração: de um lado, o desejo enorme de ter minha filha nos braços, poder olhar em seus olhos, uma curiosidade imensa de saber como ela devia ser; de outro, a vontade que ela ficasse mais umas três ou quatro semaninhas guardadinha, esperando o mundo cá de fora se ajeitar. Eu estava muito nervosa e insatisfeita com toda aquela situação da obra cuja previsão de término era para quinze dias após o início e já se estendia por quase sessenta, sem previsão para acabar.
No dia 10 de abril, faltando dois dias, portanto, para completar a 38ª semana, dei um tempo nas preocupações. Deixei a faxina da casa de lado e fui para o salão. Cortei cabelo, fiz sobrancelha, unhas do pé e da mão. Passei o dia todo lá.
Cheguei em casa no início da noite, eu e Wilson tivemos uma pequena discussão por causa dos pedreiros e fui dormir. Ele me chamou para rezarmos juntos, como fazemos todas as noites, mas fingi que já estava apagada e acabei mesmo apagando. Apagando em termos, pois havia duas noites que não dormia bem por causa de uma gripe forte, com nariz entupido e dor de garganta. Às 7h43m da manhã de um lindo domingo ensolarado, acordei com uma água molhando a cama. Levantei-me num pulo e, de imediato, imaginei que a bolsa havia se rompido. Dei uns cutucões no Wilson e fui para o banheiro. A água começou a jorrar pelas pernas abaixo. O Wilson, ainda na dúvida, chegou a cheirar a cama molhada para ter certeza de que não era xixi. Já no box do chuveiro, percebi que o líquido era clarinho e viscoso. Fomos inebriados por uma imensa e indescritível emoção. Abraçamo-nos e nos beijamos. Era dia de Culto no Lar (fazemos todos os domingos religiosamente). Neste, nossa oração seria em local e forma diferentes. Nossa Laurinha ia, enfim, chegar. Não tínhamos mais dúvidas.
Lembramos da palestra que assistimos para pais grávidos, em que o obstetra avisava: “após a bolsa rota, não há por que se desesperar”. Muitas horas ainda deveriam separar aquele momento do instante em que teríamos nossa filha em nossos braços. Tomei um belo banho e liguei pra Stéfanie, minha amiga enfermeira obstetra que havia avisado: caso a Laura decidisse chegar num domingo ou durante alguma noite, ela acompanharia o parto, o que me daria, sem dúvida, muito mais segurança.
Stéfanie também me acalmou. Disse que não precisava correr. Ela faria uma prova e lá para o meio-dia me ligaria para saber como eu estava. Eu falei do meu temor: caso não houvesse dilatação, com a bolsa rota, eu não seria admitida na Casa de Parto do Sofia e meu sonho de Parto Natural iria pro ralo. Poderia me conformar com um Parto Normal na maternidade do hospital se não quisesse seguir para o Hospital particular, onde seria atendida pelo convênio, mas certamente com a indicação para uma Cesariana. Stéfanie também me tranqüilizou quanto a isso. Disse que eu poderia sim conseguir a dilatação.
Pedi ao Wilson que fosse à padaria e comprasse um belo café da manhã, digno de comemoração. Sabia também que precisava me alimentar bem, pois o dia seria de muito trabalho. Enquanto isso, acabei de checar a mala: velas, incensos, CDs, câmera fotográfica. Ah! Tinha ficado de ligar para a prima do Wilson, a Soraia, para pedir uma câmera de vídeo emprestada. Não sei por que botei na cabeça que ela tinha e fiquei tranqüila. Mas ela não tinha nada. Então, na saída, batemos na casa do Renato – um amigo que mora de frente aqui de casa – e pedimos a câmera fotográfica dele emprestada. Pelo menos seriam duas câmeras. Uma ficaria de reserva caso a bateria da minha (que não havia sido recarregada) falhasse. Ainda deu tempo de tirar uma foto na porta de casa, com várias toalhas de banho entre as pernas e malas à tira-colo. (a que ilustra este post).
No caminho, ia lembrando ao Wilson de todo o procedimento que deveríamos adotar. Ele precisava comprar sucos e energéticos doces para eu tomar durante o Trabalho de Parto. Deveria lembrar-se de acender as velas, colocar a trilha sonora, mas, o principal, teria ainda que dar um pulinho em alguma loja de shopping pra comprar uma piscininha de plástico. É. Temia que o quarto da banheira estivesse ocupado. Pedi muito a ele também que não corresse no caminho, pois me lembrei do médico da palestra dizendo que os índices de acidentes no trânsito às vésperas de um parto eram maiores que os casos de nascimentos de bebês antes da chegada à maternidade.
Chegamos ao Sofia por volta das 9 horas. Eu me sentia flutuando!!! Finalmente era o grande dia, sabia que muitas surpresas e inúmeras alegrias me aguardavam. Enquanto o Wilson estacionava o carro, fui ao balcão de atendimento e informei a recepcionista de que minha bolsa estourara. Perguntei quanto tempo eu podia esperar. Ela disse que até 12 horas! (Que nada, depois tomei conhecimento de que na Europa esperam até 4 dias, sem nenhum inconveniente para mãe ou para o filho!). Fiz minha ficha e, feliz, respondia a todos que perguntavam: “Sim, minha filha vai nascer hoje. Minha bolsa estourou e eu não sinto nada. Mas já fazem mais de duas horas, preciso ser atendida com prioridade (rsrsrs). Tenho todos os exames em mãos e uma gravidez que não deixou a desejar. Perfeita”. Queria logo falar com o médico que fazia a admissão para garantir vaga na Casa de Parto e, se a sorte me ajudasse, no único quarto que tinha banheira de água.
Quando a enfermeira me examinou, a decepção. Eu não tinha um só centímetro de dilatação. Contei a ela da minha opção pelo Parto Natural e naquele instante me veio, como num filme, a imagem dela me dizendo que eu precisaria desejar aquilo com todas as forças do meu coração. Sim, era ela!!! A mesma enfermeira que dias antes me aconselhara. Lembrei a ela da nossa conversa. Ela sorriu e telefonou para a Casa de Parto. Em poucos instantes a enfermeira obstetra estava lá para me ouvir e dar o seu veredicto: deixaria que eu ficasse ou me mandaria de volta pra casa.
Chegou uma mulher linda, de expressão forte, olhos azuis e sensíveis. Sybille era o nome dela. Era uma enfermeira alemã que atendia na Casa de Parto. Só d’ela me olhar, percebi o quanto amava sua profissão. Senti-me muito segura naquele momento e clamei a ela que me deixasse ficar. Ela disse que não poderia me admitir sem os quatro centímetros de dilatação, mas que se eu quisesse, poderia ter minha filha ali mesmo na maternidade, por meio de Parto Normal. Se eu escolhesse, poderia inclusive ser sem a anestesia, como na Casa de Parto. Mas eu me lembrei do Dr. Hemmerson me dizendo que o parto ideal é aquele em que as condições seguem o desejo da parturiente, que o mais importante naquele momento seria minha privacidade... Minha liberdade de escolher a melhor posição, de comer e beber, de gritar, chorar, gemer... Sabia que na maternidade do Sofia eu poderia ter um Parto Normal, o que provavelmente não aconteceria no Hospital privado, que seria minha outra opção. Mas ali também, eu teria que dividir a sala de pré-parto com outras tantas grávidas, ficaria no soro e teria meu parto induzido por ocitocina ou coisa que o valha.
Notei que Sybille me olhava firme nos olhos, mas por trás daquela figura forte transparecia um coração de mãe, um coração de ouro. Disse a ela que iria andar pelo estacionamento do hospital por quanto tempo fosse necessário. Faria meus alongamentos, meus exercícios de Yoga e que mais tarde voltaria com os tais quatro centímetros de dilatação. Que ela esperasse por mim e reservasse a minha vaga.
Sybille sorriu, disse que a vaga ela não podia reservar, mas que eu voltasse de uma em uma hora para ela monitorar o bebê e avaliar o andamento do caso. Claro, quase pulei no pescoço dela de tanta felicidade. Tinha certeza que tudo ia dar certo. Tudo bem que eu não iria direto para um quarto lindo, todo preparado para o Trabalho de Parto, minha série de respirações seria no pátio mesmo do hospital, entre carros, buzinas e ambulâncias, mas com os quatro centímetros ganhos, ninguém me segurava. Ela sorriu novamente e aconselhou que eu fosse passear, almoçar, me distrair até que Laura decidisse a que horas iria chegar.
Eu e Wilson saímos saltitantes de tanta felicidade. Resolvi fazer um lanche por ali mesmo, pois, não sei se por força do pensamento, minhas contrações começaram. Ah, antes um detalhe, acho que também foi fundamental (uma ajudinha extra à força da mente): dei uma passadinha no banheiro para fazer coco. Pensei que seria bom esvaziar logo ao máximo o meu intestino e, sentada no vaso, lembrei-me de que o ato da amamentação estimulava a produção de ocitocina e, por conseqüência, as contrações uterinas. Não pensei duas vezes. Estava ali o meu primeiro passo e com os dedos das mãos pus-me a estimular os bicos dos seios por longos minutos até que começaram as primeiras cólicas e, satisfeita, deixei o banheiro e fui passear, como aconselhara Sybille.
Andávamos pela rua do hospital e íamos a todas as lojas procurando pela piscina. Fomos até em uma loja de materiais de construção. Claro, eu tinha enorme prazer em dizer a todos o motivo pelo qual eu procurava por aquele produto inusitado: estava em Trabalho de Parto e precisaria da piscina para parir. Ligamos pra família do Wilson e avisamos que o dia seria longo. Que não precisava se preocupar. Laura chegaria naquele dia e assim que tivéssemos a boa notícia, ligaríamos de volta.
As dores começaram a se tornar mais freqüentes e a cada vez que vinham eu me sentia mais feliz. Sorria e dizia pro Wilson que precisaríamos voltar para o estacionamento do hospital, pois já estava ficando estranha aquela minha forma de andar pelas ruas do bairro. De volta, eu caminhava em ritmo frenético, subia e descia escadas, sentava, me alongava, fazia as respirações que Virgínia me ensinara e, a cada contração, parava, curtia, esperava ela passar.



Às 12hs eu já sentia uma dor terrível. Procurei pela Sybille e mostrei minha barriga ficando dura. Disse a ela que parecia uma cólica de vontade de fazer coco, ela olhou e disse que aquilo não eram contrações de verdade, não eram eficientes, e que muito caminho ainda havia de ser enfrentado. Fiquei por lá mesmo, diante da mesa de lanches na entrada da Casa, trocando experiências com uma grávida que já tinhas os seus tão desejados quatro centímetros. Confesso que senti inveja, ela tinha dores na mesma intensidade que as minhas, mas apenas aguardava a preparação de um quarto para entrar e curtir o seu Trabalho. Eu ainda ficaria por lá, esperando a dilatação chegar.
Bem, quem chegou foi a Stéfanie, e nessa hora, acho que me entreguei de corpo e alma àquela dor. Foi ficando cada vez mais forte. Acredito que foi neste instante que aconteceu comigo o que eu havia lido em vários relatos: fui transportada a outro mundo, numa espécie de transe. Li no relato de uma linda mulher (que só conheço virtualmente) que essa é a hora em que vamos parar em um planeta chamado Partolândia. E lá fui eu.
Stéfanie chamou Sybille que me mandou entrar para a sala de exames. Fez o toque. Enfim!!!! Que sucesso! Que vitória! Eu havia conquistado os meus tão sonhados e perseguidos quatro centímetros de dilatação. Meu Deus eram ainda 13hs! Sybille se empolgou com a rapidez e eu só pensava nos mais de seis que faltavam. Como eu conseguiria sobreviver até lá? Brinquei com Sybille que iria desistir, que me mandassem para a maternidade e me aplicassem soro, ocitocina, peridural, tudo o que eu tivesse direito para não sentir mais dor. Ela sorriu e disse que minha batalha estava apenas começando.
Não havia vaga na Casa de Parto, mas linda, mandou-me tirar a roupa e permitiu que eu ficasse lá, no banheiro da sala dela, debaixo do chuveiro, sobre a bola de pilates. Nesse momento uma força imensurável me dominou. Conscientizei-me de que Sybille havia entendido tudo! Ela estava do meu lado. Eu poderia gritar, urrar, implorar pela transferência e pela anestesia. Ela não o faria. Sabia para o que, de fato, eu estava naquele lugar. Silenciosamente nos tornamos cúmplices, amigas de longas datas. Em momentos mais duros de contração, ela sentava-se do meu lado sob o chuveiro, segurava as minhas mãos e ia dizendo o quanto admirava minha força, minha coragem... Eu retribuía em silêncio. Abraçava seus braços, fechava os olhos e me deixava ficar assim segura e feliz com toda aquela dedicação.
Mais uma vez, Virgínia se fazia presente. Nos momentos mais difíceis, eu fechava os dedos das mãos sobre o polegar e punha em prática a respiração que ela me ensinara. Sybille se mantinha importante, ensinava-me com palavras a bendizer a minha dor! Às vezes me deixava só, curtindo aquele momento e fugia para o quarto próximo, onde outra mulher vivia também o seu momento de mulher.
Não posso deixar de dizer que meu marido estava por lá, presente em cada quanto, de corpo e alma. Até este momento produzindo, um pouco à distância, nosso ritual. Ele ainda não desistira de conseguir a piscina. Comprava sucos, água e energéticos. Às vezes conferia a temperatura da água e, em outras, simplesmente, me ofertava sua mão. Eu a agarrava com toda a força que ainda me restava.
Finalmente, às 16hs, Sybille nos deu uma ótima notícia. Ela iria providenciar a minha admissão. O quarto da banheira vagara. E só precisávamos esperar a assepsia e a arrumação. Nessa hora, eu sentia tanta dor que me parecia insuportável sair de debaixo d’água do chuveiro para me deslocar até o outro quarto. Lembro que me levantei da cadeira e perguntei se poderia ir daquele jeito mesmo, pelada, correndo pelo corredor. Kkkkkkkk. Sybille não respondeu, apenas me olhou assustada e sorriu de novo.
Ok, enrolei-me na toalha e fui em disparada. Wilson com toda a nossa bagagem foi atrás. Foi maravilhoso mergulhar naquela água quente e perceber que todo o ambiente começara a conspirar a nosso favor. Sybille mesmo trouxe um aparelho de som e deixou a música tocar. Era uma coletânea maravilhosa de instrumentais, alguns ritmos de new age, alguns mantras, umas músicas orientais e o que mais marcou naquelas horas: várias versões para a Ave Maria, muitas delas que foram tocadas na cerimônia e no meu almoço de casamento. Tudo isso era pura oração. O prazer para meus ouvidos misturou-se à penumbra da luz de velas aromatizadas, ao cheiro suave que elas deixavam escapar. Pronto, Laurinha podia chegar.
Confesso que ficar na banheira era a realização de um desejo, mas como neste momento temos que ser pragmáticas, tratei logo de pedir que abrissem a torneira do chuveiro. Era lá que a dor se tornava mais ou menos suportável. E durante horas foi onde consegui ficar.
As contrações só aumentavam de intensidade e se tornavam cada vez mais freqüentes. A dor, claro, chegava a ser insuportável. Ah, a essas alturas, Stéfanie tinha ido até a sua casa e voltado. Ela ficou responsável pelo aparelho sonador e a cada intervalo entre uma contração e outra, vinha escutar o coração do bebê, enquanto o Wilson vinha me oferecer algo para beber. Gente, vocês não têm noção do quanto isso me irritava. É que entre uma dor e outra, o tempo era curto demais e o que eu mais queria nesses instantes era ficar quietinha, curtir o silêncio, escutar o meu corpo e descansar. Só que eu não falava isso pra eles, pois me faltavam forças e eu fazia de tudo para poupá-las. Outra coisa que me irritava muito também é que, quando vinha a dor e eu expirava como cachorrinho (rápido e picadinho), eles ficavam dizendo: “expiração leeeenta e compriiiida”. Que saco, isso não adiantava para sanar a dor! A minha técnica era muito mais eficiente, mas isso também eu não encontrava o momento certo para lhes falar. Queria os dois lá, ao meu lado, mas quietinhos, em silêncio para que se processasse a minha imersão em mim mesma. Contudo, não perdia o controle da situação: se não fosse pelos meus pedidos, não haveria fotos e nem gravação. A despeito de tudo, eu fazia a direção. Hehehehehe. O Wilson me pedia para sorrir. Aí não, aí era demais.
Bem, lá pelas 19h30, joguei o chapéu e pedi, séria, para parar de brincar. Eu achava que não ia mais suportar. As dores eram terriiiiíveis. Comecei a dizer, sem nenhuma convicção, que me levassem para a maternidade e me dessem a analgesia artificial. Sentia-me fraca e perdedora. Mas, mais uma vez, Sybille me mandou ir pra cama, o caminho foi longo e cheio de dor. Ela fez o toque, e constatou: dez centímetros de dilatação. Laura não demoraria chegar. Mas Sybille precisava trocar o plantão e se foi. Lília assumiu o comando e, comigo de volta à banheira, sugeriu que eu ficasse de quatro e fizesse força. Tentei seguir sua recomendação. Mas o corpo fala. Senti que não era a hora e voltei para o chuveiro.
Foram as piores horas que passei. Várias vezes, iniciava em voz alta uma oração e não conseguia chegar até o final. O Wilson, a essas alturas não desgrudava da minha mão. Era ele quem dava prosseguimento à reza quando me faltava a voz. Eu percebia que ele estava muito nervoso e baixinho pedia que ele intercedesse por mim e me transferisse para o hospital. Por sorte e firmeza das profissionais da Casa de Parto, nossas vãs palavras não foram ouvidas. E ficamos nesse ciclo de rezas, idas sofridas à cama para o exame de toque (esses eram os momentos que eu mais temia, pois uma contração comigo de pé, fora do chuveiro, no meio do caminho, era a pior das sensações), muitas massagens na base da coluna que a enfermeira Lília ensinou a ele, com um óleo essencial que ela também providenciara (e que não adiantavam nada, rsrsrs), várias copadas de arnica (que a gentil Lília também me trazia), Stéfanie e seu sonador... Na cama, eu não gemia, eu urrava de dor. E me sentia infeliz por esses momentos de fraqueza, temia que Stéfanie e Lília me achassem escandalosa... Que nada, elas só tinham palavras de incentivo e congratulações. Diziam que o pior já havia passado e que muito em breve Laura estaria nos meus braços.
De repente, dois gritos seguidos de um choro de bebê. Não, não era da pequena Laura. Lembram da moça da mesa do lanche? Acabara de dar à luz no quarto ao lado. Era pura ocitocina pelo ar.
Houve um momento em que olhei para o relógio da parede e já eram 21hs. Então eu perguntei se não havia algo de errado. Quase duas horas já se passara dos dez centímetros de dilatação e a expulsão não se iniciava. Lília disse que se eu quisesse mesmo ganhar minha filha dentro da banheira era hora de entrar na água. E fui pra lá. Nesse momento, ela fez outro toque ali mesmo. Disse que já percebia a cabecinha dela bem na beirinha, e perguntou se eu não queria que ela ligasse um pouco de soro na minha veia. Isso iria me dar forças para chegar até o final. Olhei para Stéfanie, que conhecia os meus desejos, e ela acenou a cabeça dizendo que sim.
Foi a conta de puncionarem minha veia. Veio uma contração, duas, e na terceira senti coroar. O anel de fogo se fizera! Minha filha ia, enfim, chegar. Lília e Stéfanie comentavam: “Olha, o cabelinho dela, que gracinha”. Caí no choro. Deixei que meu corpo agisse. Eu me senti religada ao que havia de mais ancestral em mim. Fiz força para baixo, a maior força do mundo (nessa hora, senti que eu não podia falhar!) e, de cócoras, na banheira percebi a cabecinha de Laura apontar. Confesso que nesse momento senti ainda muito medo de não conseguir ir até o final. Medo de que ela ficasse agarrada, medo de que ela se afogasse, medo ainda de que alguma coisa pudesse dar errado. Fechei os olhos, deixei a cabeça tombar para traz como uma onda, mais uma força. E pude ouvir meu amado Wilson gritar e cair num choro compulsivo: “Graças a Deus, nasceu! Laurinha nasceu!!!!

 Ainda agora meu corpo todo se arrepia. Não há palavras que descrevam tamanha emoção. Eu fora invadida por uma luz celestial, minha filha, nos meus braços, olhinhos abertos e curiosos para o mundo em que acabara de chegar. Abracei Laura, e ficamos nos encarando. Os olhos dela eram incrivelmente vivos. E brilhavam. Lembro que as primeiras palavras que eu disse foram: “Que Deus lhe abençoe, meu amor”. Depois disse a ela que eu e Wilson desejávamos boas-vindas, que estávamos ali dispostos a recebê-la com muito amor para educá-la e conduzi-la nessa sua nova encarnação. E que ela, recém-chegada do mundo espiritual, se incumbisse também de nos mostrar os melhores caminhos a seguir. Formávamos, naquele instante, uma nova família. E seríamos companheiros unidos, dispostos a aprender e a crescer juntos, ajudando-nos uns aos outros, em nossa missão.
E foi assim, às 21 horas e 21 minutos do dia 11 de abril de 2010, após catorze horas de Trabalho de Parto, nasceu meu pequeno grande rebento!!! Laura estreou (re?) neste planeta Terra de Parto Natural, dentro de uma banheira, à luz de velas e sob uma trilha sonora especial! Saiu nadando com os olhinhos espertos e arregalados para o mundo. Em seguida experimentou um delicioso alimento materno, direto da fonte, com o cordão ainda ligado. Ops, duas fontes de alimentação. Papai se responsabilizou por cortar o último fio que a ligava com o ninho onde permanecera por 38 semanas!
Stéfanie e Lília trataram de nos deixar a sós. E lá ficamos os três por uma infinidade de minutos. Observando-nos, nos reconhecendo, nos acariciando, vivenciando o amor pleno.
Depois de um tempo, Lília voltou, entregou Laura nos braços do Wilson, deu-se o momento dos dois. Enquanto isso, fomos pra cama. Era hora da terceira etapa do Trabalho: a expulsão da placenta. Bastou um toquezinho dela, uma leve pressão sobre o meu ventre, e aquela bolsa vermelha saiu. Lília a retirou com cuidado virou-a do avesso e nos mostrou o saco rubro onde Laura permanecera aconchegada e fora alimentada por nove meses. Daí, partiu para os cuidados com a mãe. Precisei de uma pequena sutura, nada que não justificasse cada passo da minha escolha. Enquanto fazia seu trabalho, Lília contava dos partos das netas que presenciara e me alertava: “Não se preocupe, além de ser o hormônio do amor, o mesmo que é liberado durante o ato sexual e o ato de parir, a ocitocina também é o hormônio do esquecimento. Muito mais rápido do que você imagina se esquecerá das dores que sentiu e estará pronta para outra encomenda”. Não sei se naquele instante eu acreditei muito em suas palavras, mas perguntei brincando se ela poderia providenciar uma dose cavalar deste santo remédio para aplicar no Wilson, que pelo visto sofrera mais que eu.
Fui para o chuveiro e tomei um belo e merecido banho. Sentia todos os meus órgãos chocalhando e uma sensação indescritível de dever cumprido. Meu corpo funcionara. E eu estava ali, forte, de pé, sem qualquer resquício de dor. Pronta para ter minha filha de volta aos meus braços e dar a ela uma noite inteirinha de amor. Eu me senti respeitada. O direito de o meu marido participar ativamente do nascimento de Laura fora respeitado. Minha filha fora respeitada em seu direito de ter um nascimento digno, tranqüilo, afetuoso, caloroso, humano, NATURAL.
Depois de mamar por quase três horas ininterruptas, Laura dormiu e só acordou no outro dia. Eu e Wilson fomos até a mesa de jantar e saboreamos uma deliciosa canjiquinha que nos foi servida, enquanto eu telefonava para amigos e parentes.
Laura recebeu Apgar 9 e 10 (Deu vontade de tirar satisfação com a enfermeira: por que roubara um ponto da minha filha? KKKKKK). Pesou 2,705Kg e mediu 49 cm.
Muitas pessoas me perguntam o porquê da escolha. Por que assim é melhor. Por que assim é mais orgânico. Por que assim a natureza quer. Por que assim a criança não sofre, tampouco a mulher. Ela já nasce com o pulmão ativo, nasce na hora certa, na hora que desejar. Nasce nas mãos de quem a ama. Nasce e mama. Mantém-se aquecida nos braços da mãe. Firma logo seus laços com o pai. Nasce e abre os olhos. Nasce ativa, esperta, sem remédio pra curar a dor.
Mamando na primeira hora, o intestino começa a funcionar mais rapidamente, induz, na mãe, a produção de ocitocina e conseqüentemente a expulsão mais fácil da placenta, induz a contração do útero e diminui o risco de hemorragia. O bebê não é agredido pela luz dos refletores, pelo frio do ar-condicionado, pelos aparelhos de aferição de peso e altura, pelas mãos protocolares dos médicos de plantão.
A mulher participa, sente com todo o corpo, mente e espírito.
Era isso que importava: a certeza de que não tirariam minha filha de perto de mim logo que ela nascesse, que não remexeriam nela toda, que não a impediriam da graça de abocanhar meu seio logo nos primeiros minutos de sua chegada, que não impediriam aquele momento único, mágico e sublime do (re) encontro de três almas que se amam e que muito tinham a compartilhar – Laura, Wilson e eu.
Detalhe, lembram-se do meu Plano de Parto? Pois é, esqueci de apresentá-lo às enfermeiras, mas tudo, linha por linha, fora seguido à risca, providenciado por um marido que me ama, por uma equipe que respeita à natureza feminina, pelas mãos de Deus.
Ah, aprendi a bendizer a dor! Sinal divino de que meu corpo trabalhara direitinho.  Depois, fui a saber que o soro na veia sequer fora ligado! Se pudesse, aliás quando eu puder, passaria passarei, novamente por aquilo tudinho!!! Pois é, quanto ao hormônio do esquecimento, posso deixar meu testemunho de que o danado funciona que é uma beleza! No dia seguinte, adorava sentar à mesa de refeição com as outras parturientes e falar sobre como é bom parir, saber delas por quanto tempo estiveram em Trabalho de Parto, onde tiveram suas crias, se na cama, no chuveiro ou na banheira. E planejar o próximo!! (Por mim seriam próximos, mas o Wilson só quer mais um).
Agradeço à minha Laura, por ter confiado e, em um ato de amor e humildade, ter se comprometido a vir a esse mundo como minha filha. Obrigada por guerrear comigo.Tenho a mais clara certeza de que nosso caminho será construído por uma história de muito afeto, cumplicidade e respeito. Por ora, minha missão é educá-la e guiá-la. Dar a ela as condições para crescer no amor, na compaixão, na moral e na ética. Mas, tenho também  clareza de que, grande em espírito, Laura terá muito mais a me ensinar e eu, humildemente, acatarei os seus exemplos.
Agradeço a Deus pelo marido (uma doula mais que perfeita) lindo, maravilhoso, carinhoso, atencioso, cúmplice, companheiro e acima de tudo que acredita nas minhas loucuras e faz outras tantas para realizar os meus sonhos, como fazer uma filha linda e perfeita e me ajudar a parir da forma mais linda e perfeita ainda!
Agradeço a Deus por ter nos confiado uma criatura tão especial que mostrou a que veio ainda mesmo em sua chegada!
Agradeço à amiga Stéfanie que, mesmo falando pra caramba e me importunando com aquele microfone de escutar neném a todo o momento, foi fundamental para que eu me sentisse segura e amparada!
Agradeço à enfermeira Sybille que, nesse primeiro encontro, confiou na minha capacidade, no meu corpo, no meu desejo e guerreou a meu favor. Como até hoje é reconfortante lembrar os olhinhos azuis dela me olhando no chuveiro, segurando as minhas mãos, praticamente lá debaixo comigo, e dizendo que admirava a minha garra, a minha coragem. E nestes momentos, eu apertava o seu braço e beijava suas mãos. A impressão é que nos conhecíamos há anos. E devíamos nos conhecer mesmo.
Agradeço a toda a equipe da Casa de Parto Normal do Sofia Feldman. Ah, como todas as cidades deveriam ter uma instituição repleta de profissionais como essa que, desde a nossa primeira visita, nos mostrou respeito e amor pela vida, pelo ser humano! Lá, onde todos são tratados como iguais, onde a autonomia da mulher reina a despeito de qualquer vaidade e da pseudo-onipotência da medicina moderna.
Agradeço à minha querida Nossa Senhora Aparecida, à minha sogra Zizinha, à minha avó Ana, seres aos quais eu recorria nos momentos mais difíceis. Faziam-me conectar à minha ancestralidade!
Hoje me sinto mais humana. Meu processo encarnatório tem outro sentido. Sinto-me mais útil, mais responsável, mais completa, mais feminina, mais bonita, mais fêmea, mais mulher.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Introdução: Partejando...

Setenta e dois dias após o nascimento da Laura, pela primeira vez, consigo sentar diante do computador para rememorar, rever e reviver aqueles que foram e têm sido os momentos mais importantes da minha vida.
Estou tentando parir este espaço, muito inspirada por minha amiga Katja (http://descobertascomdavi.blogspot.com/ - qualquer semelhança não é mera cópia, é pura inspiração, hehehehe), com o objetivo de deixar registradas as valiosas descobertas que a maternidade tem me proporcionado. Essa espécie de diário, além de servir às recordações de Laura, permitirá também que os amigos e parentes que se encontram mais distantes possam acompanhar o crescimento desse lindo ser que trouxe novo sentido à minha existência e me ensina a cada instante o que é amar, confiar, compartilhar e crescer.
O dia-a-dia com minha filha me levou a um universo nunca antes sonhado. Um universo de alegrias, de dores, de muito trabalho e de uma energia que se renova a cada sorriso, a cada choro, a cada olhar...
Nessas postagens, além do que me ensina Laura, estarão impressas também as trocas  a que ela, de certa forma, me conduz: o contato com outras mães que, assim como eu, buscam desempenhar seus  papéis da melhor maneira possível, acalentadas, sobretudo, pelo amor incondicional que essas criaturinhas nos despertam. Às amigas que passam pela mesma etapa de vida que eu (Lu, Katja, Mirian) e as novas e anônimas companheiras (dos grupos de discussão - Fraldas de Pano, Matrice e outros), fica aqui minha gratidão, por contribuírem para que a cada dia eu me orgulhe de mim.
A próxima postagem será o relato de como tudo isso começou, a minha escolha e a minha conquista pelo Parto Natural. Não sei se conseguirei estar aqui todos os dias, mas sempre que minha principal atribuição e o motivo disso tudo aqui -Laurinha- permitir, cá estarei para deixar marcadas essas valiosas lições.