Alguns ecos...

Alguns ecos: a maioria destes textos é tecida de matéria prima que Laura me oferece, e também das várias leituras a que ela me induz, mas que muitas vezes, introjetadas, não consigo nem mais citar a fonte. Contudo todas elas podem e devem ser acessadas por meio dos meus Gadgets.

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segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Estamos no Mamíferas!

 
Há 18 meses, minha preciosa fora coroada! Parece que foi hoje! Ainda revivo, a cada noite na hora de dormir, esses que foram os momentos mais importantes da minha vida, quando meu querido marido chorava, gritando emocionado: “Nasceu! Graças a Deus, a Laurinha nasceu!”.

Graças a Deus.

Hoje minha filha é do mundo. Está neste planeta o dobro do tempo que viveu em mim! Quantas saudades... Como ela mesma diz: saudades de quando ela morava “dentro do barrigão”! Felicidade por tê-la hoje aqui – linda, vívida, esperta, desperta!

Laura é muito especial! É a criança mais viva que um dia sonhei conhecer. A mais linda que jamais pude querer! Seu olhar, curioso, é inimitável, despido de preconceitos, inquieto, deslumbrado, enxerga a tudo com a pureza de quem vê pela primeira vez.

Laura é doce! Carinhosa e companheira! Com uma sensibilidade super aguçada, dá provas de que compreende bem tudo o que se passa, compadece-se com as situações, oferece seu abraço, seus muitos beijos e sua massagem!

Ela sabe o que quer. Mostra a que veio. É determinada, valente, obstinada. Nossa! Como é obstinada! Desde seus cinco meses de vida nos perguntamos: “Como é possível caber tanta personalidade em um corpinho tão pequeno!

É faladeira como ninguém! Fala desde que completou o primeiro ano. Fala tudo e, quando não sabe como falar, fala também. Inventa suas próprias palavras. Algumas são coringas: “Adê” é a interrogativa que serve tanto para “o que”, como “por que”, e “pra que”. “Aum”, que segundo o pai é o princípio de tudo - a primeira letra do alfabeto e o primeiro número – designa todo o resto que ela não sabe falar.

Eu tenho vivido assim... Aprendendo sempre!

Há oito meses fui convidada para escrever no Blog das Mamíferas sobre essa aprendizagem. Nossa! Que honra! Fiquei embaraçada. Muita responsabilidade. Rascunhei o texto que agora decidi, enfim, publicar, aqui. Ele continua atual. Parece que, a cada dia, mais vívido e intenso. Traz um pouquinho de nós, de como decidimos encarar esse encontro que nos une na Terra. E como temos tentado viver, lutando a cada dia, para encontrarmos a tal felicidade...

quarta-feira, 20 de abril de 2011

20 Meses depois... mais um parto sem intervenções: a volta ao trabalho

Nossa, como ando sumida do blog!!! Juro, assunto é o que não falta! Ai, gostaria tanto de compartilhar todas as experiências... vejam só, não consegui ainda escrever sobre a Introdução à Alimentação Complementar da pequena, mas renovo meu compromisso em dividir isso com outras mães, já adiantando que com 1 ano, Laura continua uma "mamona"!!! Não escrevi sobre a experiência do engatinhar, do nosso mergulho na Medicina Antroposófica, da nossa adesão irrestrita à Alimentação Orgânica, da Festa Vegetariana e livre de açúcares do aniversário de 1 ano da minha querida filha!!! Mas tenho certeza de que todos estes assuntos serão temas para novos posts que, com certeza, irei me dedicar.
Hoje quero falar da minha volta ao trabalho: dizer que tudo foi muito mais tranquilo e orgânico do que podíamos (eu, Wilson e Laura) imaginar.  É que, com muito planejamento, tivemos a graça de passar por essa experiência quando Laura já estava prestes a completar 1 ano. Taí, acho que foi o tempo ideal! Nem menos, nem mais. Eu e minha filha pudemos nos curtir, e mais que isso, vivenciar todo o nosso processo de separação sem culpa, dor e atropelos. (Agora terei que trabalhar mais 3 anos consecutivos, sem direito às férias, para propocionar o mesmo tratamento ao BB2, hahahahahaha, ou me preparar para fazer diferente, já que o melhor é o possível!).
Durante os primeiros 11 meses de vida, Laura teve uma mãe completamente à sua disposição. Colo, peito, amor irrestritos! Tudo o que extrapolasse essa tríade, era assunto de segunda ordem em nossa rotina. Eu tive o privilégio de me deliciar de perto com todas as primeiras experiências e descobertas, foi um processo muito intenso e delicado. Tivemos todo o tempo do mundo para compreendermos, juntas, que nos tornamos dois seres independentes uma da outra, mas eternamente ligadas por um amor cúmplice e seguro que foi se construindo desde o ventre. 
O principal ensinamento que Laura me proporcionou foi de que tudo tem sua hora e que paciência é o ingrediente fundamental, não pode faltar! Ai, confesso, claro, as angústias sofridas em horas e horas seguidas de cadeira de balanço amamentando, enquanto todo o serviço da casa tinha que esperar. Ah, tinha que esperar!!! Respeitar as necessidades, os desejos, a vontade própria daquele serzinho que acabara de chegar... Tendo sempre em  mente o mantra: "tudo é fase e vai passar"! Respeitei e muitas delas já se passaram... deixando saudades, mas a certeza de que valeram à pena. Como valeram!!! E ainda me perguntam porque minha filha é tão alegre, "tão tranquilinha", tão segura, capaz de passar um dia inteiro com pessoas amigas, mas, a princípio, estranhas a ela, longe do pai e da mãe, sem reclamar!
Hoje, Laura não necessita mais do meu colo 24h por dia, quer mesmo é correr a casa engatinhanho, ou se agarrando nas paredes e nos móveis. "Dandá"! Nossa! Que alegria aquele sorriso ainda desdentado que expressa a felicidade da curiosidade, da conquista, da liberdade, do serzinho que quase anda, cambaleante. Da segurança de que o colinho encontra-se ainda disponível quando ela quiser e precisar voltar.
Laura (ainda que tenha como preferência número 1 o peitinho da mamãe), não faz da Livre Demanda desculpas para se manter plugada 24h no mamá. A transição para outros tipos de alimentação tem sido lenta e gradual, mas plena em sua evolução. Não tivemos e ainda não temos pressa: Laura experimentou outros sabores (frutas) com quase 7 meses de idade (quando já se mantinha sentada sozinha, há quase dois meses; quando já não mais tinha o reflexo da língua e podia engolir o alimento sólido; quando já podia, autônoma, aceitar ou recusar). Devagarinho, ela experimentou, um por um, os sabores dos legumes, das verduras, dos cereais, das oleaginosas. Nos mostrou tendências de um paladar que ainda está a se formar. Com 8 meses, teve respeitado o seu desejo de voltar à Amamentação Exclusiva. E agora, depois que a mamãe saiu para trabalhar, é capaz de bater um pratão, tomar suco e ainda exigir a frutinha como sobremesa, carinhosamente preparados e oferecidos pelo papai.

Mas, claro, nem tudo são flores...

Fácil não é. Ainda mais quando se opta por caminhos que, à primeira vista, parecem mais difíceis. Mas os parcos espinhos de hoje, tenho a convicção, serão flores que já vemos brotar.
No último post que publiquei, tive a oportunidade de falar sobre nossa escolha (minha e do Wilson) em não oferecer à Laura nenhum tipo de bico (chupeta, mamadeira, copinhos de transição...). E, certamente, isso foi um dificultador em nossa adaptação. Afinal, bico serve de consolo (eu acho que é engodo) e mamadeira faz bem o serviço para os pais. MAS... as consequências, na nossa opinião, com certeza, nos dariam muito mais trabalho e nos fariam menos felizes, com a consciência menos em paz.
Uns dois meses antes de voltar ao trabalho, comprei uma bomba de tirar leite e dei início às tentativas do estoque. Ainda que Laura já estivesse apta a comer outros alimentos, achava importante deixar meu leite à disposição para ser dado no copinho de cachaça, com o qual ela bebe água e, raríssimas vezes, suco (não dou leite de vaca pois entendo que leite de vaca é para bezerro, o leite da Laurinha nasceu com ela, nos seios da mamãe). A ideia era que, pelo menos, Wilson conseguisse dar a ela o leite materno misturado às frutas e cereais. Mas, nosso investimento foi praticamente em vão... A espertinha não aceita o leitinho fora da fonte nem por decreto! É capaz de identificá-lo em meio às frutas e a recusa é veemente. Se fosse na mamadeira, TALVEZ aceitasse... O resultado é que a garota agora se pluga em meu peito às 16h e se solta Deus sabe lá a que horas da manhã do dia seguinte... quando então saio para trabalhar. Aceita o jantar muito mais ou menos, mas ainda exige, a cada duas colheradas de comida, uma pausa para mamar. Assim vamos seguindo, até que ela se sinta pronta para romper mais este vínculo, ao que, tenho certeza, não se furtará.
Na primeira semana, pensamos que dormir longe do peito fosse ser mais uma dificuldade. Mas essas criaturinhas são espertas. Passado 1 mês, Laura já entende a rotina proposta pelo pai. Depois da fruta da manhã, é hora do banho morninho, uma musiquinha calminha, um aconchego no colinho e taí, a sonequinha da manhã ainda é irregular, às vezes tarda, mas não falha. E a danadinha que antes dormia, no máximo, uns vinte minutinhos, é capaz de passar 1 hora inteirinha adormecida para que Wilson tenha tempo de preparar o "papá". Para isso, acho que foi fundamental o fato de Wilson estar presente desde o momento do nascimento... assumindo as funções do banho, troca de fraldas, brincadeiras, momentos só dos dois... Foi fundamental eu me sentir segura e acreditar na cumplicidade dessa relação.
Ah, a preparação do "papá" também foi um pouco difícultada quando voltei a trabalhar. Nossa opção em oferecer à Laura apenas alimentos orgânicos e não oferecer-lhe nada, nada, nada industrializado, muito menos carnes, deu-nos um pouco mais de trabalho. Seria mais fácil se optássemos por recorrer às papinhas envidradas, aos eventuais congelados. Mas não. Mantivemo-nos firmes pela opção da alimentação natural e, sobretudo, alimentação viva. A solução foi estender a comida saudável da Laura a todos da casa. Resultado: hoje, todos comemos alimentos orgânicos, biodinâmicos, e, na medida do possível, até eu e Wilson temos tentado nos livrar do açúcar (utilizamos o mascavo, mel e rapadura), pois até o nosso café da manhã já está sendo "filado" pela piquitita. O jeito foi a mamãe se virar e diversificar os dotes culinários: tenho feito bolos e pães integrais, com frutas secas, nozes, castanhas, e todos saimos ganhando. Não raro ficamos, eu e Wilson, na cozinha até a 1h da manhã.
A única concessão às nossas escolhas é que às vezes usamos a fralda descartável. Entre lavar as fraldas de pano e curtir os momentos junto à Laura, tenho ficado, sem dúvidas, com a segunda opção. Mas sei também que é uma questão de dar tempo à nossa adaptação à nova rotina.
Escrito assim, parece que esse segundo parto foi sem atribulações. Não foi não. Mas seguimos firmes em nossa opção pelo natural. Nada de muletas, berçário e babás... Aos poucos vamos, os três, nos adaptando às necessidades uns dos outros. O Wilson fica mais cansado, ainda assim é capaz de segurar a onda sozinho por uma meia horinha de manhã para que eu possa me refazer da noite (dormida torta, amamentando). Laura faz a parte dela, que é se manter feliz e saudável. Hoje, quando peço a ela que diga "mamãe", a danada logo responde com o sonoro desafio: "papai!", hahahaha!!!E eu? Eu me explodo em satisfação. E quer saber? Achei que ia sofrer horrores longe da pequena, mas preciso confessar que não sofro nada. As horas que passo no trabalho são preciosas. É meu reencontro com minha solidão. Depois de 20 meses, eu revivo a sensação de ser só eu, na certeza de que no fim da tarde vou novamente me explodir em beijos e abraços. Por isso, na estrada, de volta pra casa, eu "corro, corro demais, corro demais, só pra te ver meu bem....".
Jamais poderia imaginar que faria isso por outra mulher. Mas faço, por você eu faço tudo, minha pequena grande Laura!!!

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Copinhos de Transição: não caia nessa pegada!

Mamãe eu quero, mamãe eu quero chupeitar...
...só dá chupeta a mamãe que não quer dar mamá


Há muito estou precisando voltar os olhos e os dedos (principalmente) para as bandas de cá. Mas, como este mês comecei a trabalhar de casa, o tempo anda ainda mais escasso.

Por outro lado, o que não falta é assunto... Laurinha completou seis meses, há dois sarou da assadura (estou devendo um post sobre como exterminar assadura por fungos e, consequentemente, sobre leite materno x reflexo gastrocólico); há um, se livrou totalmente do refluxo gastroesofágico (mais uma dívida de post!); iniciamos a INTRODUÇÃO à alimentação COMPLEMENTAR (e este é um post que vai render pano pra manga, pois quero muito dividir minha experiência com todas as mamães de primeira viagem que por aqui passarem).

Depois, quero contar também sobre a aula de baby-yoga que participamos, sobre a nossa incursão na medicina antroposófica e sobre a experiência com a primeira e bendita febre na vida da minha pequena! Puxa, como esses cinco e seis meses vieram cheios de novidades!

Como tem sido um assunto recorrente não só nos fóruns de discussão que participo, mas entre papos de amigas e vizinhas, vou hoje, finalmente, falar sobre minha opção pelo NÃO uso de chupetas.

Na verdade, sempre fui radicalmente contra, a começar por ser uma muleta da qual se lança mão até quando (e somente!) é conveniente à mãe. Este mês, depois de comprar um copinho de transição para apresentar água e sucos à minha pequena, bateu-me uma grande dúvida! Percorri lojas e drogarias atrás de um modelo que fosse mais orgânico, cujo bico não permitisse o livre fluxo de líquidos, que exigisse a sucção, que fosse de silicone, que fosse livre de Bisfenol A, que tivesse a famosa válvula que impede a formação e a passagem de gases.

Ou seja, uma maratona: passos de uma mãe de primeira viagem. Para no fim, Laura fazer a maior disfeita! Simplesmente usou o copo como mordedor. Depois que se cansou, o mandou longe. E, claro, caiu de boca no peitinho da mamãe.

Cá entre nós, minha filha é inteligente. A natureza cuidou de dotá-la, assim como a todos os bebês, de instinto de sobrevivência. Não há enganação. Eles sabem o que é melhor. E eu, humildemente, a obedeço! Vamos à compra de um copinho, sem bicos, sem válvulas, sem silicone, sem muita perfumaria, sem a necessidade de chupação.

Chupeta passada em revista

Pelo que ando estudando, percebo que, atualmente, a chupeta (e, em consequência, mamadeiras, chuquinhas e copinhos com biquinhos, canudos e afins) tem sido desaconselhada até mesmo por pediatras mais conservadores, por causa da possibilidade de que ela interfira negativamente não apenas na formação da arcada dentária, do palato, mas na respiração, na deglutição, na mastigação e na fala, como também, o que é ainda mais assustador, no processo de aleitamento materno, entre outros motivos.

Tem-se verificado que crianças que chupam chupetas, em geral, são amamentadas com menos frequência, o que pode comprometer a produção de leite. Embora não haja dúvidas de que o desmame precoce ocorra mais comumente entre as crianças que usam chupeta, e, ainda que não sejam conhecidos os mecanismos envolvidos nessa associação, não é difícil inferir que o problema está diretamente relacionado à facilidade que é vendida à mãe para que essa possa se desincumbir da função de prover amparo, carinho, distração, calor e aconchego à criança.

É até possível que aconteça uma inversão na ordem dos fatores, ou seja, que o uso da chupeta seja um sinal de que a mãe está tendo dificuldades na amamentação ou de que tem menor disponibilidade para amamentar. Mas é inegável o fato de que o produto é mais uma das novidades que a puericultura tratou de introduzir na vida moderna para, desvirtuando a autêntica relação fêmea-filhote, aumentar os ganhos financeiros das indústrias e empresas que se mantém neste tipo de negócio, assim como foi com o leite artificial, com a mamadeira, com os carrinhos de carregar bebês, com as fraldas descartáveis, com os lencinhos umedecidos e com um número infindo de outros artefatos industrializados.

Não bastasse esse papel desarticulador da relação materna, a chupeta pode ainda ser responsável por uma ocorrência maior de infecções, como candidíase de boca (sapinho), otite média, estomatite, amigdalite, faringite e outras tantas "ites" que são infecções contraídas por contaminação oral, além das terríveis cólicas causadas por gases que se ingere durante a sucção.

A relação entre o uso da chupeta e a lactância

Estudos comprovam que os malefícios que podem vir à tona a longo prazo se estendem às mamadeiras e aos copinhos de transição. A comparação de crânios de pessoas que viveram antes da existência dos bicos de borracha com crânios mais modernos sugere o efeito nocivo dos bicos na formação da cavidade oral.

"Todos os copinhos que a criança precisa sugar através da formação de uma pressão negativa intra-oral não são funcionais e podem alterar a rota de crescimento dos ossos da face, por prejudicar as funções, trabalhando os músculos errados. Como consequência, aumentam-se os riscos de desenvolver respiração bucal, má-oclusão, patologias respiratórias, distúrbios de fala, problemas mastigatórios e deglutição atípica", diz a odontopediatra Andréia Stankiewicz. Além, é claro, de, como falado anteriormente, levar ao desmame.

Para sugar o peito, o bebê além de ter que se esforçar - colocando em funcionamento uma horda de músculos faciais - precisa "esperar" pela descida do leite. Mamadeiras, chuquinhas e copinhos de canudo contribuem para o desgringolar deste processo. Com o fluxo maior de líquido que esses artefatos permitem, em uma presteza que basta virar o recipiente, o bebê simplesmente se torna acomodado e, certamente, desaprende a pega mamária. A consequência, que tem como resultado invariavelmente o desmame, pode ser, além de fissuras causadas no seio, a sub-lactância, ou seja, bebê desnutrido: prato cheio para os entusiastas do complemento artificial.

A esse respeito, veja pesquisa realizada pela Liga do Leite - uma organização internacional não governamental, sem fins lucrativos, que oferece informação e apoio às mães que desejam amamentar seus filhos.

ChuPEITAR ou não chupetar, eis a questão!

Não raro, tem rolado em meu meio a discussão polêmica: "e se o seu bebê fizer seu peito de bico?". De cara, recomendo a quem pensa que o peito da mãe serve apenas à alimentação do filhote que prossiga com essa leitura. Ora, se não for fazer o meu peito de bico vai fazer o peito de quem? Já ouviram falar da Fase da Oral? Freud explica!

Aquela velha história que se ouve das amigas, avós e até de profissionais da saúde - "essa menina está te chupetando e vai ficar mal acostumada"-não faz o mínimo sentido. Primeiro porque o que é natural e original é o peito e não a chupeta; segundo, porque não há nada de mal em a criança chupeitar a própria mãe. Ao contrário, sinal de bebê normal e esperto, que sabe o que é bom, barato, e saudável. 

E, de mais a mais, isso é discurso de mulheres que ainda estão presas à revolução feminista, quando foram para as ruas queimar sutiãs e decretar sua liberdade! Mas hoje, os tempos são outros. A mulher pode provar ao mundo que é capaz de agir profissionalmente em pé de igualdade com os homens, sem precisar se abdicar da maternidade ativa!!! E para a mulherada que perdeu a oportunidade de viver sua feminilidade plena é muito difícil dar o braço a torcer e concordar que maternar com amor e disponibilidade é uma forma de empoderamento muito mais orgânica e eficaz que sair às ruas queimando peças íntimas, enquanto os filhos são deixados em casa com babás, televisões, mamadeiras e chupetas. Admitir isso seria dar a mão à palmatória, e amargar um tempo que não há mais como voltar atrás. 

Afinal, para além do Leite Materno - que é o alimento ideal e perfeito para qualquer filhote - amamentar é o contato mais divino, mais sagrado, de troca entre mãe e filho. Ora, bebês não necessitam apenas de alimento para o corpo, mas, sobretudo, de alimento para a alma recém-chegada neste novo planeta; precisa ouvir e sentir a respiração da mãe, o barulho do seu coração, precisa do seu calor, precisa se sentir aninhado, tal qual esteve durante nove meses, na barriga. Sobreviver longe do ninho em que estivera protegido, onde não necessitava sequer fazer esforço algum para matar fome e sede, e ainda ter que driblar as adversidades de temperatura e som totalmente novas para ele é muito difícil. 

Filhotes precisam de tempo para se acostumar à vida, aos seus corpos em formação, a todas as sensações que o seu organismo em recém-funcionamento lhes apresenta. Precisam de tempo para aprender suportar ou lutar contra a fome, a sede, o frio, o calor, as cãibras, a dor. E ainda que a mãe supra tudo isso... ainda assim, precisa de mais peito! Bebê é gente, sente medo, tédio, solidão... E, de mais a mais, quanto mais se oferece aos bebês, de forma natural, aquilo de que eles precisam, tão mais rápido eles aprendem a suprir suas necessidades sozinhos. Ou seja, bebê amado é adulto independente, seguro e feliz!

Mal acostumadas são mães que negam ao bebê aquilo que é dele por direito!  Mal acostumadas são mães que precisam se desdobrar em mil e uma mulheres para provar ao mundo que têm poder e por isso optam pelo desmame precoce (lembrando que OMS alerta para a importância do aleitamento materno e exclusivo até os 6 meses!). Claro que há exceções! Há aquelas que realmente, por forças de alguma circunstância, não podem, de fato, amamentar.


O problema (silencioso) dos Copos de Transição, canudos, bicos e afins...


Pensei que iria esgotar o assunto no texto acima, mas o fato é que em meus ciclos de convivência o tema tem dado mais pano pra manga do que eu poderia pensar... Cheguei a ser chamada de xiita e acusada por julgar mães que decidiram por escolhas contrárias à minha. Mas, muito longe de fazer um mea culpa, volto para reafirmar, de forma breve, o porquê da minha opção por não usar chupeta, mamadeira ou copinho de transição. Lembrando que cada um escolhe seu caminho, eu apenas explico como foi e porque escolhi o meu.

Recebi alguns emails e ouvi comentários de amigas também dizendo que “um pouquinho só não faz mal”... Ora, oferecer chupeta só para o bebê adormecer, dar a mamadeira só durante as mamadas noturnas, usar o copinho de transição só quando precisar... O problema é o “só”, até quando este tipo de necessidade será estendido. Até que se crie um hábito?

É claro que precisamos fazer algumas escolhas que vão de encontro às nossas convicções, pois são momentos em que necessitamos optar pelo “menos ruim” (sic). Mas isso não quer dizer que deixam de ser escolhas ruins. Optar por um parto cesáreo (ops, cirurgia não é parto!) quando o bebê está realmente em risco é uma escolha necessária, nem por isso a cesária, em sentido amplo, é boa. Optar pela indução do parto normal, às vezes, pode ser razoável, mas nem por isso a interferência deixará de trazer algum tipo de prejuízo à mãe e ao bebê, ainda que seja distanciar-se do natural. Optar pelo uso de mamadeiras, complementos artificiais e afins pode ser necessário, claro, mas nem por isso é o melhor.

Mas agora, venhamos, copinho de transição é demais! O que não faz a indústria do consumo para ludibriar mães de primeira viagem que, assim como eu, ambicionam o melhor para seus filhos, quando, na verdade, o melhor é tão simples e está tão disponível a todas nós.

Em primeiro lugar, copinho de transição é eufemismo! E a indústria deveria estampar em suas embalagens: “Este produto é similar a qualquer mamadeira. A única diferença é que ele vem com alças para 'facilitar' a sua vida e a do seu bebê!”. Facilidade que pode custar mais do que se imagina. E, por falar em custo (financeiro propriamente dito), copinho de transição é um artefato mais caro, exatamente porque vende este conceito da diferença, da evolução. O que, na verdade, é balela.

Em segundo lugar, transição de quê para quê? Se o bebê mama no peito (ou pelo menos deveria) e por n motivos (muitos deles alheios à vontade da mãe) precisa se alimentar fora da fonte original, porque precisaria passar por uma transição do peito para o copo, utilizando-se para isso de uma mamadeira com alças? Melhor ("menos ruim") seria então que o bebê mamasse direto na mamadeira, pois assim se evitaria uma falsa sensação de estar se fazendo o melhor (ou o "menos ruim"). Com a clareza de uma escolha consciente, a pessoa pode, inclusive, buscar outras alternativas tão logo lhe seja possível.

Se, como o próprio nome já diz, esses copinhos serviriam apenas para fazer a transição para copos normais, porque é que a maioria das crianças permanece com o hábito por anos e anos? Por praticidade? Por que não derramam nem se quebram? Por que a criança se acostumou, se afeiçoou... enfim... Qual é o nosso papel de mães e pais?

Ora, se um adulto tem dificuldades para manusear um copo de vidro ou ofertar líquidos a um bebê com a colher, o que esperar do filho que precisa aprender a controlar os movimentos, a força, a coordenação motora? Parece-me mais razoável que se treine primeiro os pais, os cuidadores, as babás e as mães a manusearem os artefatos que sejam pouco mais saudáveis.

O que não vale mesmo é, por comodismo, incutir, nos pequenos, hábitos e estímulos que podem lhes ser cobrado caro no futuro. Segundo a odontopediatra Andréia Stankiewicz, hábitos orais poderão ser perniciosos a depender de uma série de variáveis e não apenas do hábito em si. Por exemplo, o tempo versus a duração e a intensidade do hábito, associado ao biotipo da criança, pode fazer estragos para a vida toda. “O estudo da biotipologia nos mostra que existem crianças que são mais vulneráveis ao desenvolvimento de problemas, mesmo que o tempo versus duração e intensidade do hábito não sejam significativos. Normalmente são as crianças mais gordinhas (endoblásticas) ou aquelas bem magrinhas, com o rostinho mais fino e comprido (ectoblásticas) as que sofrem mais com os maus estímulos do meio. Por outro lado, crianças que têm um predomínio muscular (mesoblásticas) ou equilíbrio dos tecidos (condroblásticas) apresentam biotipos mais resistentes”, explica.

Ela chama a atenção para o mecanismo de sucção envolvido no processo, sem ficar preso aos rótulos: se é mamadeira, copo de transição, com bico duro, com bico de silicone ou com canudo. Dá tudo no mesmo!

“Quando existe uma sucção onde o líquido precisa ser extraído a vácuo (com a criança literalmente chupando), alguns músculos serão requeridos de forma diferente do que o aleitamento no peito, onde ocorre a ordenha do leite, sem pressão negativa dentro da boca, exceto na hora que o bebê posiciona o mamilo quase na garganta. Inclusive, quanto mais difícil de sair o líquido, mais esforço (errado) essa musculatura precisará fazer. E talvez isso atrapalhe o amadurecimento de algumas funções”, completa.

O que queremos dizer com este post é que existem outras opções, talvez menos bonitas ou coloridas ou divulgadas, e que não prejudicam o desenvolvimento orofacial e nem o organismo do seu bebê como um todo. E exemplos não faltam: copos ou xícaras comuns, mamadeira-colher, colherinha, conta-gotas, seringa, copo de cachaça. Algumas dessas devem se adaptar a maridos cuidadores e babás mais estabanados.

E sobre a ideia de que 'um pouquinho só não faz mal' ou 'meu irmão chupou chupeta e usou copinho de canudo a vida inteira e tem os dentes lindos', Drª. Andréia explica: "São estas crianças (que geralmente as pessoas falam que fizeram isso e aquilo e chuparam chupeta e tomaram mamadeira e etc e nada aconteceu) que, em geral, apresentam bruxismo e uma mordida profunda, sem que esteticamente existam grandes alterações".



Agradeço às maternas Luzinete Rocha de Carvalho e Andréia Stankiewcz pelas palavras pegas emprestadas e pela inspiração!

Leia (vale muito à pena!):

Considerações sobre a chupeta baseadas em evidências





sexta-feira, 16 de julho de 2010

Fraldas de Pano: uma volta 'mais que muderna' ao passado

Gente, este post não se configura exatamente em um capítulo da história de Laurinha, o quarto eu ainda estou devendo...e falarei sobre Refluxo Gastro-Esofágico! É que a "mocinha" está exigindo muito a atenção da mamãe e, claro, eu sou todinha dela!!!! Mas não pude deixar de passar por aqui para registrar a nossa nova investida: o uso das fraldas de pano.
Bem, tudo começou com a Amamentação em Livre Demanda... hehehehe. Bebê que come muito... vocês já sabem... intestino em bom funcionamento... caquinha à toda hora! Aqui em casa, minha quase bebê (quase porque há pouco completou o que chamei no post anterior de Quarto Trimestre Gestacional e está ainda a caminho da "maturidade") apresenta o chamado Reflexo Gastro-Cólico (que faz parte daquela listinha dos "pequenos defeitos fisiológicos" que bebezinhos podem apresentar nos primeiros meses de nascidos, uma vez que ainda não estão totalmente formados). Trata-se de uma espécie de "diarréia benigna", vamos dizer assim, que não é sinal de problema algum, tampouco faz mal ao bebê (a não ser causar assaduras, se as trocas não forem eficientes). A evacuação é desencadeada pela chegada do alimento ao estômago (gastro), que se distende e lança o aviso para a medula espinhal, que, por sua vez, avisa ao intestino (cólon) ser hora de funcionar. É o chamado movimento peristáltico, destinado a empurrar o alimento pra frente, como um riozinho. Em alguns recém-nascidos (caso da Laura), isso acontece a cada mamada.
Como na Livre Demanda Laura mama quase o dia inteiro, a nossa contribuição para o lixo ambiental começou a nos assustar. Cerca de 10 fraldas descartáveis por dia!!!! Daí, fizemos as contas: 3.650 fraldas por ano! Suponhamos que ela continuasse nesse ritmo (o que não acontecerá, claro), se ela desfraldar com 3 anos, teríamos contribuido com 10.950 fraldas a poluir o mundo! Não! Não é esse o planeta que queremos deixar para nossos netos e bisnetos.
Foi conversando com a nova amiga Mirian Kenia (que se tornou amiga a partir da troca de experiências sobre a maternidade), que descobri uma lista de discussão na internet sobre Fraldas de Pano. Lá existem mães maravilhosas, super empenhadas em proporcionar o melhor para seus filhos e que, feríssimas no assunto, deram-me todas as dicas e dividiram comigo uma verdadeira cartilha.
Aluna aplicada, tratei logo de experimentar: comprei minha primeira leva de fraldas de pano, uns modelos super moderninhos que as mamães mais descoladas têm usado em suas crias e que lembram aquelas antigas calças-enxutas (que em BH não se acha mais para comprar), mas que, além de mais bonitas, apresentam um novo sistema: elas possuem umas aberturas (como fronhas) chamdos de pocket (ou bolsos) onde são colocados os inserts (ou absorventes) - tiras feitas em tecidos específicos para absorver ou deixar passar o xixi, como a microfibra, o soft ou fleece (que dá o aspecto "sempre-seco" semelhate ao das fraldas descartáveis), o cânhamo ou hemp, e até de bambu.
Existem fraldas nacionais, mas o mercado ainda está se desenvolvendo. E existem também muitos produtos importados cuja performance, infelizmente, ainda supera a do produto brasileiro. É que as fraldas nacionais ainda não contam com um tecido plástico chamado PUL, que recobre a parte interna das gringas e evita os vazamentos. Eu acabei comprando 5 nacionais e 2 importadas para fazer o teste inicial. Apaixonei-me pelas importadas e acabei encomendando mais doze delas - quantidade suficiente para me libertar de vez das fraldas de plástico. Quer dizer, não totalmente. Ainda fico insegura de sair com as de pano, pois como os cocozinhos são muitos, quase líquidos e muito volumosos, infelizmente (e vergonhosamente), por enquanto, continarei usando as descartáveis nessas ocasiões. Com a consciência um pouco mais tranquila, embora alerta e disposta a abandoná-las por completo tão logo o coco endureça e se torne menos frequente.

Como funciona
Desde o nascimento da Laura, eu e Wilson temos nos revezado na função de lavar à mão e passar todas as suas roupinhas. Chegamos a usar aquelas tradicionais fraldas de pano C....r e a experiência em lavá-las à mão não foi das melhores... os dedos daqui de casa ficaram feridos!!!
Ao escolher as "fraldas de pano mudernas", fui surpreendida com a informação de que as mesmas não poderiam ser passadas. O quê!!!! Quase morri! Chorei na lista de discussão. Fui criticada. Quase apedrejada! Em pleno século 21, lavando roupas à mão e passando fraldas? Explicaram-me que o calor do ferro diminui o poder de absorção do tecido e tentaram me convencer de que ferro nada esteriliza. O pediatra da Laura disse que matar bactéria não mata mesmo, mas que dificulta beeem a vida delas. Mas, como estávamos dificultando mais a nossa vida, que a delas, rendemo-nos. Compramos uma máquina de lavar nova (só para as roupas da Laura) e decidimos secar as fraldas durante à noite (quando - apenas dentro das nossas mentes repletas de pensamentos esterilizados - há menos poeira e, portanto, mais segurança ao bumbunzinho da nossa filhinha).
Nos primeiros raios da manhã, lá vamos nós, recolhemos as fraldas e (ai, que medo) vestimos Laurinha.
A manutenção é mais fácil do que se imagina: fraldas sujas vão direto para um balde com água e tampa; fim do dia: água corrente para tirar o excesso de coco e "bora" pra máquina; de lá para o varal; do varal para o bumbum; e tudo de novo. É importante usar pouco sabão, pois o excesso pode impermeabilizar a camada superficial da fralda. E um inconveniente é que não se pode também usar pomadas no bumbum, pelo mesmo motivo acima exposto.
Ah, detalhe: descobri, aqui mesmo no Brasil, uns absorventes excelentes feitos deste tal material que deixa o bumbum sequinho. Tenho utilizados-os entre o bumbum e a fralda, o que normalmente me dispensa de trocá-la por inteiro. Quase sempre troco apenas o absorvente que retém a umidade e mantém a fralda limpa e seca. Ainda tenho apanhado um pouco. Confesso que principalmente com relação ao ajuste das fraldas, vez ou outra, o xixi vaza. Mas acredito nas mães "velhas de guerra" que me garantem: essa fase de vazamentos vai passar e, no futuro, estaremos felizes em ter contribuído minimamente para a saúde do nosso planeta (e do bumbum da Laurinha também, né, porque ninguém merece tanta química presente naqueles super, hiper, mega power gels que garantem a absorção nas descartáveis).


segunda-feira, 5 de julho de 2010

Terceiro Capítulo: Sim, eu tenho peito!

Amamentar é uma característica natural, de toda mamífera ou, pelo menos, deveria ser. Mas o ato, que é, sobretudo, uma forma de sobrevivência da espécie, requer muita paciência, disponibilidade e até bom humor. É preciso persistência.
É claro que muitas mulheres que deixam de amamentar o fazem por sérios problemas fisiológicos, mas são raríssimas essas situações. O fato é que à maioria faltam mesmo informações. Informações de que não existe “leite fraco”; de que o bebê não aprende a mamar da primeira vez que é colocado no peito; de que esse é um processo de aprendizagem para as duas partes; de que nem sempre que o bebê chora é porque está com fome e que, portanto, toda mulher produz a quantidade de leite necessária à demanda do seu filho; de que o leite não “seca” assim de uma hora para outra sem que haja uma solução com um pouco de obstinação; de que, a despeito de todo trabalho, as vantagens de se dar o peito são absurdamente maiores que a opção pelo aleitamento artificial.
Mas, além de obter informação, é imprescindível que a mulher se sinta compreendida e apoiada pelos amigos e família. Gente pra dar maus conselhos, fazer comparações e cobranças é o que não falta. Amamentar pressupõe estar disponível aos horários e exigências do bebê (e cada um é de um jeito). Isso significa muitas vezes atrasar encontros, desmarcar passeios, deixar de fazer sala para visitas. Estar indisponível em certos momentos para atender telefonemas. Às vezes também deixar de dormir e até comer comida fria. Daí a minha sugestão (sou maruja de primeira viagem, mas funcionou): tranque-se com seu bebê, desligue-se do mundo e se sinta à vontade. Procure informações, aprenda o essencial e, na Hora H, vocês saberão o que fazer.
É claro que muitas dúvidas irão pintar. Por exemplo, seria ótimo se cada seio fosse transparente e viesse com dosador. Você saberia exatamente quantos mls/dia o seu bebê estaria mamando. Mas se seu filho faz coco e xixi regularmente, não apresenta sinal de desidratação e está ganhando peso, parabéns ele está se alimentando bem. E o processo é assim, quanto mais o bebê suga, mais leite você produz, uma relação de procura e oferta mais que perfeita que só o tempo pode ajustar.
Nos primeiros meses, é normal que a criança mame com freqüência e horário irregulares. Com Laura foi assim: ela não acordava para mamar. Dormia feito uma anja. A noite toda e o dia inteiro. Foi preciso que eu interviesse e, nos primeiros dias, a acordasse de três em três horas. Até hoje não sei se agi corretamente. Foi indicação dos médicos, mas, no meu coração de mãe, naquele momento, a recomendação encontrou acolhida. Era duro! Dava dó! Mas eu o fiz. Pensava estar fazendo o melhor para ela.
Laurinha parecia uma ratinha, de tão pequenininha. E antes de cada mamada, era necessário que eu a despisse por completo e fizesse uma série de cosquinhas. Ficávamos as duas assim, peladas. In natura, mãe e filha...
Aos poucos, ela mesma começou a expressar sua necessidade. E hoje, graças a Deus, minha filha mama muito. Mama a hora e o quanto quer. Mama de manhã, às vezes a manhã toda. Mama durante a tarde. À noite, tem diminuído as mamadas. Mama por volta das 23hs e depois só acorda no dia seguinte, às 7hs da manhã, muito bem disposta a mamar de novo e recomeçar um dia inteirinho de mamadas. Assim nos sentimos felizes. Além de saciar a fome dela, saciamos nossa necessidade de estarmos juntas e nos amarmos.

Self-service ou Livre Demanda
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a criança seja amamentada sem restrições de horários e de tempo de permanência na mama. Até os seis meses de idade, com exclusividade, e até os dois anos, como alimentação complementar. Essa ausência de restrições é o que se chama de Amamentação em Livre Demanda. A criança aprende a “buscar” o suprimento do tamanho da sua necessidade. Aqui em casa, vamos nos mantendo assim... livres. Outro dia, minha avó disse que estou deixando Laura “mal acostumada” (como assim????), pois não se passara meia hora de uma mamada e ela estava de volta ao meu peito para mamar. Perguntei a ela se ficaria satisfeita caso tivesse sede e alguém a impedisse de beber água, caso tivesse fome e alguém a impedisse de comer. E emendei: da primeira vez ela bebera água, agora é hora do jantar.
Aliás, sabe que isso faz sentido? O leite do início da mamada, o chamado leite anterior, pelo seu alto teor de líquido, tem aspecto semelhante ao da água de côco, mata a sede. E ele é muito rico em anticorpos produzidos contra os agentes infecciosos com os quais a mãe já teve contato. Já o leite do meio da mamada tende a ter uma coloração branca opaca devido ao aumento da concentração de caseína. O leite do final da mamada, o chamado leite posterior, é mais amarelado devido à presença de betacaroteno, pigmento lipossolúvel presente na dieta da mãe. Ou seja, a concentração de gordura no leite aumenta no decorrer de uma mamada. Assim, o leite do final é mais rico em energia (calorias) e sacia melhor a criança.
De forma que não há necessidade em se iniciar os alimentos complementares antes dos seis meses, podendo, inclusive, haver prejuízos à saúde da criança, pois a introdução precoce de outros alimentos (até mesmo de chazinhos e água) está associada a maior número de episódios de diarréia; maior número de hospitalizações por doenças respiratórias; maior risco de desnutrição, se os alimentos introduzidos forem nutricionalmente inferiores ao leite materno; e menor duração do aleitamento.
Além disso, na amamentação, os sabores e aromas de alimentos consumidos pela mãe acabam sendo transmitidos para o bebê, de forma que o leite materno oferece diferentes experiências que vão refletir nos hábitos alimentares da criança e, em conseqüência, do adulto. Ou seja, crianças que mamam no peito aceitam melhor a introdução da alimentação complementar. Sem falar que o aleitamento materno diminui o risco de alergias; diminui o risco de hipertensão, colesterol alto e diabetes; reduz a chance de obesidade; provoca efeito positivo na inteligência; é responsável por um melhor desenvolvimento da cavidade bucal da criança. E, em contrapartida, a mulher que amamenta está mais protegida contra osteoporose e diversos tipos de câncer. Mas, se tudo isso ainda não for suficiente, amamentar ainda auxilia a perda de peso adquirida com a gravidez, já que o organismo da mulher precisa “queimar” calorias na produção do leite.
Como se vê, amamentar é muito mais que encher a barriga. É um processo que envolve interação profunda entre mãe e filho, com repercussões no seu desenvolvimento cognitivo e emocional. Além de constituir a mais sensível e eficaz intervenção para proteção e nutrição, é também a mais econômica forma de alimentação
Plano de Amamentação
Muito embora na minha família quase todas as mulheres dissessem não à amamentação – alegando que não tinham leite – nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de não amamentar minha filha. Também sempre ouvi de muitas primas dizerem que não amamentaram seus filhos para não deformarem seus seios. Gente!! Meus seios são o que mais gosto no meu corpo e nunca também passou pela minha cabeça que amamentar pudesse torná-los disformes.
Um dos pontos fundamentais em meu Plano de Parto era poder amamentar Laura no primeiro momento de sua chegada. E isso pesou muito para que eu escolhesse o Parto Natural, queria ter a certeza de que minha filha não sairia dos meus braços antes de nos desfrutarmos da primeira mamada.
Essa decisão, eu tomei a partir dos diversos artigos que li. Eles me fizeram entender que, além de contribuir para a “descida” mais rápida do leite materno - que pode demorar até três ou quatro dias -, fortalecer os laços afetivos mamãe-bebê, e transmitir segurança àquele serzinho que acabara de chegar a um ambiente totalmente estranho (onde a partir de então precisaria que alguém satisfizesse suas necessidades, ao contrário do ambiente uterino, onde tinha tudo o que precisava sem esforço algum), Laura estaria recebendo logo “sua primeira dose de vacina” (devido à elevada presença de anticorpos no colostro), além de uma espécie de “elixir” (vou chamar assim) que a prepararia para as futuras refeições, claro, no peito da mamãezinha.
É que uma pesquisa realizada pela Queen Mary, Universidade de Londres, revelou uma substância chamada PSTI (pancreatic secretory trypsin inhibitor - em português, inibidor da secreção da tripsina pancreática) que protege e repara o intestino delicado dos recém-nascidos. O PSTI impede que o pâncreas seja danificado pelas enzimas digestivas que produz. E, segundo os cientistas, apesar de ela ter sido encontrada em todas as amostras de leite materno, está presente em níveis mais altos no colostro (aquela aguinha rala que sai nos primeiros dias antes do leite propriamente dito). Bem, o fato é que até hoje, com quase três meses de vida, Laura nunca teve uma só colicazinha.
Mas, a despeito de todo o poder nutricional e da proteção que o leite materno proporciona, o que me parece mais incrível é o laço que ele cria entre mim e minha filha. As trocas de olhares, o chamego daquela mãozinha sobre o meu peito enquanto adormece com a boca no bico, a barriga com barriga, o calor e a respiração. A amamentação nos matém assim, juntinhas! É maravilhoso observar que os meus seios latejam e começam a chorar a cada instante que Laura, sozinha em seu berço, desperta para mais uma “mamazinha”. Ela não precisa sinalizar, são eles que me avisam: é hora de mamar.
Eu e Laura nem bem começamos nossa curtição e  os conselhos já começaram a pipocar. Uns dizem que não devo deixar a menina mamar assim tão livremente pois ela pode se “viciar” (hahahahaha) e depois “será um custo tirar esse vício”!!! Alguns sugerem a introdução da chupeta para acalmá-la, do contrário, só vai dormir “chupetando” o meu bico. Que privilégio! Antes isso. Uma chupeta livre de bactérias, que não deforma os dentes e que eu posso lançar mão dela a cada suspiro. Outros já vêm logo perguntando se antes de terminar a licença à maternidade tratarei de disciplinar a Livre Demanda. O quê??? Fazer minha filha sofrer por antecipação? Se o sofrimento tiver que vir que seja adiado pelo maior espaço de tempo possível. E para os que querem mesmo saber quando pretendo iniciar o desmame: perguntem à Laura, somente ela poderá dizer quando tem a intenção de recusar a “mamazinha” da mamãe.
Na nossa sociedade, dita moderna, a mulher, com freqüência, sente-se pressionada a desmamar, muitas vezes contra a sua vontade e sem que ela e o bebê estejam prontos pra isso. Existem vários mitos relacionados, tais como as crenças de que o leite da mãe é prejudicial para a criança sob o ponto de vista psicológico, que ela jamais desmama por si própria, e que menino que mama fica muito dependente. Mas o homem é o único mamífero em que o desmame se dá por influência desses fatores socioculturais. Com a Laura, espero que o desmame seja um processo no seu desenvolvimento. A independência é uma parte disso tudo e chega pra todos; para uns, mais cedo; para outros, mais tarde. Minha filha será dependente enquanto ela precisar, e enquanto quiser minha bichinha permanecerá aninhada. Eu, mamífera e mãe disposta a dar o melhor de mim, estarei atenta acompanhando, participando e esperando, naturalmente, o crescimento e a independência da minha Laura. Neste dia, ela estará apta a cortar mais este cordão que nos une, vencendo mais uma etapa de adaptação nesta escola que é a vida. Eu estarei feliz, vendo-a correr para sua individualização.
E, como boa provedora, espero poder doar a ela o meu sangue, do mesmo jeito de quando estivera dentro da minha barriga, porém agora em forma de leite, por muito tempo ainda. Graças a Deus que tudo isso já é, em nosso país, um caso político. Viva o Lula que estendeu minha licença por seis meses. Para quem ainda não se ligou, se liga, existem leis que incentivam e protegem as mães que amamentam os seus filhos (clique aqui).

IMPORTANTE: AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE POST SÃO FRUTOS DE LEITURA E REINTERPRETAÇÕES DE UMA MÃE DE PRIMEIRA VIAGEM, PARA ASSEGURAR-SE DE INFORMAÇÕES TÉCNICAS E CIENTÍFICAS É ALTAMENTE RECOMENDADO IR DIRETO ÀS FONTES.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Capítulo I: Relato de Parto Parido


A Encomenda


Sempre quis muito ser mãe. Morria de curiosidade para saber como seria gerar e sentir um ser humano crescer dentro de mim. Meu maior sonho era ser digna de botar uma criança no mundo, e sentir o peso da responsabilidade de educar, de preparar para a vida, mas mais que isso, era poder ser capaz de construir uma família amorosa, respeitosa, unida, justa e feliz (em muitos aspectos bem diferentes das experiências que vivi), tendo como alicerce a ética, a moral e os valores do Cristianismo. Seria o início de um novo ciclo, a oportunidade de rever erros do passado e o propósito de mudar o rumo de uma história que insistia em se repetir.
O meu maior medo era descobrir algum problema físico que me impedisse a maternidade. Quando, em 2003, soube de um teratoma no ovário quase morri de tristeza. Foi apenas em dezembro de 2007 que criei coragem para fazer a cirurgia de retirada, mas plena de confiança em Deus. Um ovário apenas seria suficiente para gerar tantos quantos fossem os filhos que Ele achasse por bem me confiar.
Importante dizer que, claro, ao meu lado, além da fé, esteve sempre presente também meu marido querido, que nessa época era ainda apenas namorado. Já tínhamos planos de casamento (desde o primeiro dia em que assumimos o nosso namoro), bem como de formar uma linda família. Viessem os filhos de nós mesmos ou fossem eles adotados. Amaríamos com a mesma intensidade.
Logo que decidimos marcar a data do casamento (que seria em julho de 2009), começamos a nos organizar para ficarmos grávidos. Fizemos exames pré-nupciais, e eu dei início a exames pré-natais (mesmo antes de conceber a cria!). Tomei vacinas, mudei a alimentação, suspendi medicamentos, álcool e tudo o que não fosse saudável à geração e à gestação.
Exames feitos e nova disciplina admitida, tratamos logo de iniciar as tentativas. Pensei que levaria uns dois anos para engravidar, por isso começamos as tentativas em janeiro de 2009, mesmo sabendo que o casório seria para julho. Foi batata! Já na primeira! Não precisou mais que vinte dias para eu descobrir que estava grávida!!!!! Sabe o que isso significava? Eu estava grávida. G.R.Á.V.I.D.A. Engraçado, embora sonhasse tanto com isso, jamais imaginaria que eu pudesse ficar grávida.
Bem, vou resumir essa parte. Buscamos juntos o resultado que, a princípio, nos assustou muito, pois queríamos engravidar, mas não exatamente assim, de imediato. Pensamos em iniciar as tentativas, mas contando com os erros de mira. Esperávamos engravidar mais próximos da data marcada para nos casar, que era 18 de julho. O que importa é que, tratamos logo de acreditar no que o papel nos dizia – mais de 50.0000 MUIs, hehehehe, eu não estava simplesmente grávida, eu estava gravidíssima! – e decidimos antecipar a data do casório, pois eu pretendia ainda ser uma grávida esbeltíssima dentro do meu belo vestido de sereia. Sei que no fim das contas me conformei em casar de barriga mesmo. Marcamos o casamento para 10 de maio, dia das mães, quando eu estaria de quatro meses. Assim comemoraríamos as duas datas. Fizemos convite pensando nisso. Divulgaríamos, numa só peça gráfica gravidez e casório, necessariamente nesta ordem.
Não contávamos com um acidente de percurso. Com nove semanas de gestação, eu sofri um aborto espontâneo. Foi horrível. Fomos fazer um ultrassom e a médica simplesmente olhou pra mim e disse que não havia batimentos cardíacos do feto. Enfim, sofremos o que tínhamos que sofrer, e seguimos em frente com os preparativos do casamento. Pra falar a verdade, juro que nem sofri tanto, pois eu tinha a mais absoluta certeza que engravidaria de novo e muito em breve. Eu dizia que a mim bastava ter tido a prova de que a fábrica funcionava. Se funcionara uma vez, haveria de funcionar mais tantas quantas desejássemos e Deus nos permitisse. Tinha a convicção de que o aborto acontecera simplesmente porque o ovo não havia sido bem formado, o que não impediria que meu filho (ou filha) voltasse em um outro corpinho que haveria de se formar com perfeição.


Coração de Mãe não falha
Nossa cerimônia de casamento foi linda, linda!!! Do jeito que sonhamos. No final de julho, decidimos tentar novamente. Bem, o Wilson não queria tentar naquele momento, pois o mundo enfrentava a crise da gripe suína com a qual várias grávidas morreram. No dia mesmo em que fizemos a Laura, tivemos uma discussão durante o dia. Ele queria esperar um tempo a crise passar e eu disse que seria naquele dia que tomaríamos uma decisão que iria mudar nossas vidas para sempre. Convenci. Claro, no final da "conversa" foi essa a vontade dele! No dia 6 de agosto de 2009, fizemos a Laura!!!!
Naquela mesma semana comecei a sentir palpitações misturadas a ondas de frio e de calor. Claro que não comentei com mais ninguém a não ser com o Wilson: eu tinha certeza de que estava grávida. A sensação era a mesma da primeira vez em que engravidei. Uma felicidade leve e vaga, qualquer coisa que me fazia suspirar... Marquei uma consulta com meu GO e solicitei um pedido de exame de sangue. Ele não acreditou em mim. Disse que ainda que eu estivesse grávida não daria para perceber os sintomas. Dias depois ele reviu suas palavras e deu crédito às minhas palpitações, o coração de mãe não se enganara.
Foi no dia 17 de agosto, que peguei o resultado: 267 MUI/ml. Eu ainda nem dera pelo atraso da menstruação, mas já sabia, eu estava grávida! A minha gestação foi maravilhosa. Fiz tudo o que os manuais mandavam. Wilson me levava à cama, todas as manhãs, um prato fundo lotado de frutas com cereais. Comia verduras variadas, legumes, ferro, cálcio e tudo o que fosse necessário. Bebia rios e rios de água. Fiz um ultrassom a cada 15 dias durante toda a gravidez e acompanhei cada milímetro do crescimento da minha filha dentro de mim.
Definitivamente, eu era a pessoa mais feliz e a mulher mais bonita deste mundo!!!!
A escolha pelo Parto Natural

Tudo começou em 2008, quando assisti pela televisão a um programa de auditório, desses beeem populares, que trazia ao centro do debate histórias de mulheres parideiras. Todas haviam tido seus filhos de Partos Domiciliares e, no palco, exibiam suas crias mais que saudáveis, espertas, felizes e hiper-calmas.
Alguns vídeos caseiros foram mostrados e era lindo ver como elas dedicavam horas a, literalmente, esperar pela chegada do bebê (essa era a impressão que eu tinha, mais tarde saberia o quão laborioso é para mãe e filho o Trabalho de Parto), a despeito da dor que sentiam, com a mais pura expressão do prazer estampada em suas faces.
Achei tudo muito emocionante e fiquei pensando se um dia eu seria merecedora daquilo tudo e se teria coragem... Mas apenas a poucas semanas do meu parto, tudo isso veio a se tornar uma idéia fixa, uma quase certeza, eu diria.
Desde o quarto mês de gestação, eu praticara Yoga (resgatando uma velha prática dos tempos de solteira) e esses momentos eram para mim oportunidades sagradas de contato íntimo com meu bebê. Durante a meditação nossa sintonia era muito forte e eu percebia que estávamos de fato plugadas em uma mesma energia, com desejos e objetivos semelhantes: sabíamos que cinco meses separavam o encontro dos nossos olhares e que este momento tão esperado seria, para nós, inesquecível, mas, fundamentalmente, maravilhoso. Cuidaríamos para que fosse da forma mais perfeita possível.
Além da oportunidade desse encontro de almas, a Yoga trouxe à minha vida a presença da Virgínia, professora que, mais que uma mestra, mostrou-se uma grande amiga, acolhendo, dando carinho, conselhos e, o mais valioso, a oportunidade de adquirir mais informações e conhecimento. A leitura dos livros que ela me emprestou foi fundamental, tanto para me sentir completa no processo de gestar uma criança, como na escolha do processo que traria Laura à luz da vida.
O livro do Dr. Emerson Godoy – Gestação, Parto e Maternidade – uma visão holística- introduziu-me no mundo maravilhoso do Trabalho de Parto. Nele, o ginecologista, obstetra e homeopata descreve cada momento pelo qual passa o corpo de qualquer mulher. E ele descreve de um jeito que eu ficava me perguntando por que eu nunca antes ouvira falar daquilo. A maioria das mulheres da minha família tivera seus filhos por cesariana com dias e horas marcados há pelo menos oito meses de antecedência, com direito a um SPA no dia anterior à RETIRADA do bebê. E eu sequer imaginava que, muitas vezes por livre escolha, elas abdicavam de momentos sagrados por pura ignorância, falta mesmo de informação. Como eu fui privilegiada tendo acesso a esse universo esclarecedor de exemplos e palavras!
Outro livro com o qual Virgínia me presenteou foi – Origens Mágicas Vidas Encantadas – de Deepak Chopra. Trata-se de um guia holístico que analisa todo o processo de concepção, do ponto de vista fisiológico, psicológico e espiritual. E, por fim – Nossos Filhos são Espíritos – de Hermínio Miranda, foi uma indicação da amiga Glenda, que, sem ter a menor noção, contribuiu para que o meu parto fosse natural. Este livro espírita traz, dentre outros, relatos de regressões psicológicas, em que as pessoas contam o quão difícil é para o espírito o momento da encarnação, da chegada à Terra, da passagem mesmo pelo canal de parto, a dificuldade de, pela primeira vez, ver a luz desmedida das salas de cirurgia, de lidar com a frieza dos profissionais presentes e nem um pouco envolvidos pela emoção do momento.
Sem querer, fui elaborando o meu plano que, só muito mais tarde, saberia que, de fato, tratava-se de um Plano de Parto, uma carta de navegação, um documento que deveria ser seguido à risca em respeito à minha vontade, ao meu protagonismo na maternidade, à minha independência, à minha natureza de mulher. Ele incluía luz de velas; a presença apenas de pessoas queridas; o Wilson, claro, atuante do nosso lado durante todo o trabalho, da admissão ao nascimento; a liberdade para caminhar, deitar, agachar, pular, dançar, respirar, alongar; o uso da água da banheira e do chuveiro como anestésico natural; o consumo de bebidas e alimentos com alto teor de glicose e carboidratos; a utilização de objetos pessoais, como música, flores e incensos (detalhe: o dia em que eu arrumava a minha mala e a do meu bebê, a moça que dava limpeza na minha casa disse que nunca tinha visto alguém levar aquilo tudo para dar à luz, que eu parecia mais estar indo para um retiro espiritual que pra uma maternidade); a infusão intravenosa apenas se assim eu desejasse; o monitoramento intermitente do feto pela enfermeira, mas sem aqueles aparelhos eletrônicos. No momento da expulsão, eu queria estar de cócoras ou sentada na água. Minha determinação era de que o bebê fosse colocado imediatamente no meu colo e amamentado assim que possível, antes mesmo do clampeamento do cordão umbilical, que se daria apenas depois que parasse de pulsar. O pai seria o único autorizado a cortá-lo. Por fim, eu exigia ser informada de cada procedimento.
Meu parto não seria uma questão meramente fisiológica, mas social, cultural e, principalmente, espiritual. Ele seria um ritual. Um ritual de amor, de emoção, de carinho, de trabalho e de iniciação. Eu diria não à raspagem dos pêlos pubianos (tricotomia), à lavagem intestinal (Enema, Fleet-Enema, Enteroclisma), ao corte no períneo (epsiotomia). Não à medicação para alívio da dor e para aceleração do parto, como ocitocina, ao uso de estribo ou perneiras. Não queria ser tratada como uma doente, por isso, não desejaria estar em um hospital.
Nunca havia entrado na minha cabeça a opção dos médicos pela posição horizontal para o momento da expulsão. Mesmo leiga no assunto, ficava me perguntando se em pé, ou agachada, a própria força da gravidade não cuidaria de fazer a sua parte. Imagina! Se grávida não consegue dormir de barriga pra cima, por causa do peso do útero sobre a veia cava, imagina se posicionar assim e ainda fazer força num momento de dor! Como diria minha avó, brada os céus a onipotência dos médicos que desde a época da Primeira Guerra Mundial tratou de sedar as mulheres com morfina e escopolamina, botá-las em pose ridícula com estribeiras e obter de vez o controle de toda a situação. Industrializaram o parto.
Ainda no século XXI, as maternidades oferecem um serviço baseado na presença de obstetras, anestesistas e pediatras 24 horas por dia, munidos de suas ferramentas de incisões, suturas e monitoramentos, além de regras, rotinas e protocolos. Até o chamado “Parto Normal” é protocolar: a mulher recebe ocitocina sintética intravenosa, enquanto o bebê é monitorado eletronicamente; é entubada para esvaziar a bexiga; recebe uma lavagem intestinal; seguida de uma peridural; durante as últimas contrações, seu períneo é cortado; no momento da expulsão, uma enfermeira debruça sobre suas costelas; o bebê, nascido sob fortes holofotes e ares-condicionado, leva uma palmada, é separado da mãe e levado pra baixo de uma torneira, torturado pelo frio do ambiente e pela linha de montagem daqueles profissionais. É aspirado, pesado, medido, vacinado e, se deixarem, até alimentado. E essas são algumas das diferenças entre o chamado Parto Normal e o Natural. Diferenças que nortearam minhas escolhas. Escolhas que foram nascendo aos poucos. Construídas a partir de muita leitura, muita pesquisa. Um processo intenso e solitário. Um belo dia, na 35ª semana de gestação, um amigo me perguntou pelo MSN se eu faria o meu parto como o Dr. Marco Aurélio. ???? "Quem é Dr. Marco Aurélio?" Ele me respondeu que era "um médico 'natureba' e que todas as grávidas da área da cultura de MG tinham filhos com ele e que como eu era 'atriz e jornalista da área da cultura' provavelmente faria também esta opção, influenciada por meus pares", rsrsrs. Confesso que me chamou muito a atenção e pedi a ele que falasse mais sobre esse médico. Ele não tinha mais informações, mas me enviou um link com o endereço do Núcleo do Bem Nascer. Foi apenas neste momento, nos últimos minutos do segundo tempo, que eu descobri que eu não estava sozinha em minha caminhada.
No mesmo dia devorei todas as informações do site. Mandei um email, enlouquecida, para o Dr. Hemmerson (médico que faz parte deste núcleo de obstetras que optam pelo Parto Natural e Humanizado) perguntando se ele atendia pelo meu plano de saúde. Eu já havia falado com o meu médico sobre a possibilidade do parto de cócoras. Ele riu na minha cara e disse que se eu quisesse mesmo me botaria agachada sobre a mesa de cirurgia e faria meu parto como se faz com índio. Mas, depois, mais respeitosamente, disse que não me acompanharia durante todo o TP, por opção dele, já que se encontrava próximo de se aposentar e não tinha mais disposição para isso. Enfim, foi sincero, o que em muito me ajudou.
Imagina, trocar de médico àquela altura poderia ser loucura! Mas graças a Deus, para alívio e surpresa, o Dr. Hemmerson me respondeu no mesmo dia. Disse que estaria à minha disposição, no dia seguinte, no consultório dele para uma conversa. E lá fui eu ainda meio sem acreditar na minha boa-ventura! Como não havia preparado uma poupança, não seria possível realizar o parto com ele ou com qualquer obstetra do Núcleo, mas saí de lá muito confiante. As dicas dele foram valiosíssimas. Ele atendia também no Hospital Sofia Feldman que é referência para toda América Latina em Partos Humanizados. Trata-se de um hospital do SUS, do qual já tinha ouvido falar bem, mas também muito mal, pois lá, sempre optam pelo Parto Normal, Cesárea só em caso de risco (as referências do “mal” vêm sempre de mulheres que desejariam simplificar o nascimento dos seus filhos com uma Cesariana). No Sofia, as mulheres têm ainda a opção do Parto Natural, que acontece na Casa de Parto anexa à maternidade. Lá, os partos são sempre sem analgesia artificial e sem qualquer método de indução, além de dispensarem a equipe médica. São realizados com a presença de enfermeiras obstetras e não há pediatras para separar a criança da mãe após o nascimento. Ou seja, o parto é, de fato, natural.
Bem entre conversas e discussões, com vários médicos e enfermeiras, descobri que pelo plano de saúde eu jamais realizaria o meu sonho. Ouvi da própria boca de um médico que se dependesse do valor pago pela Geap eu, com certeza, teria minha filha por meio de cirurgia. “Ninguém está disposto a esperar mais que as sete horas de plantão por um trabalho de parto, para no final receber seus R$300,00 ou R$400,00. Faz-se várias cesáreas em uma mesma noite, cumpre seu trabalho e no dia seguinte ainda está livre e bem disposto para atender às consultas particulares em seu consultório”. Bem, isso me apavorou. Como me disse uma amiga enfermeira obstetra, “domingo e feriado então não há útero que se dilate”. É, mulher nenhuma tem “passagem”.
No final de semana seguinte tratei de juntar o Wilson e lá fomos conhecer a Casa de Parto do Sofia Feldman. Justamente naquela semana um colega dele, por coincidência ou tramas do destino, narrara-lhe a feliz história do nascimento de sua filha naquele local.
Chegando lá, meu coração até tremeu de contentamento. Fomos tratados com enorme carinho, respeito e consideração. Aquele sim era um ambiente propício ao momento mais importante da vida de uma família. Era uma casa. Ansiosa, eu perguntava a todas as enfermeiras o que era necessário para ser admitida, se corria o risco de não encontrar vaga, se o único quarto com banheira era disputado. A enfermeira que cuidava de uma mulher que acabara, linda, de ter seus gêmeos de Parto Normal e, tranquilamente, tomava suco com um pedaço de pão, ali mesmo, no corredor do hospital, vendo minha emoção disse: “se você quiser, você terá sua filha do seu jeito, mas tem que querer mesmo, do fundo do seu coração”.
E eu queria tanto, tanto, mas era um desejo tão grande, imenso, enorme, que fazia de mim - que sempre fora uma das mais inseguras criaturas do mundo - ter a convicção de que tudo sairia como o esperado. E eu esperei, esperei com minha obstinação, que todos conhecem, a obstinação que move todos os meus atos. Neste caso, eu sabia que não teria muito controle, mas tinha a certeza de que o meu desejo por si poderia agir, que Deus estava do meu lado, que meus mentores espirituais preparavam o meu caminho e, o mais importante, que Laura tinha o mesmo desejo que o meu. Assim seria feito.
Para ser admitida na Casa de Parto do Sofia, o universo tem que conspirar. A gestação tem que ter sido impecável: nenhuma intercorrência, nenhuminha infecção urinária sequer, pressão arterial de criança; os exames têm que estar todos em dia; o bebê tem que nascer a termo, ou seja, ter chegado pelo menos à 37ª semana; o Trabalho de Parto tem que estar adiantado (com pelo menos quatro cm de dilatação); tem que haver vaga (Se bem que me disseram que esse não seria o meu maior problema, pois toda gestante é avisada de que lá não se pode optar pela analgesia, e que, optando pela peridural, o parto é realizado na maternidade, no hospital mesmo em que a Casa de Parto é anexa. Como a maioria não quer parir ao natural, acaba optando pelo Parto Normal, na maternidade e a Casa de Parto acaba ficando livre para as "naturebas" de plantão).
E foi sob essa expectativa que passei o resto dos dias da gestação. Para distrair, dedicava as noites lendo relatos de Partos Naturais, e me debulhando em lágrimas a cada vídeo a que assistia. Isso me alimentava. Tentava convencer o Wilson a assistir a eles também, pois tinha medo d’ele não saber se comportar na hora H. Se pudesse, faria uma leitura dinâmica pra ele de todos os livros e artigos que li. E logo eu, que tudo controlo, que tudo quero prever e planejar, me vi ali, no fim de uma gravidez à mercê do tempo e da boa sorte.

 
O dia P

Sabia que o dia estava se aproximando, mas torcia para que a gestação se estendesse para depois da 40ª semana. Eu estava com uma mega obra em casa. Por que toda grávida inventa de fazer reforma meses antes de o bebê chegar? Foi assim com a maioria das minhas conhecidas e eu havia jurado que não faria isso nunca, mas não consegui escapar. Parece sina. Laura ainda não tinha quarto para habitar, muito embora seus móveis haviam sido comprados há dois meses, e eu torcia para que ela esperasse ficar tudo arrumadinho. Sonhava em ver o quartinho todo pintado, os móveis armados, as roupinhas lavadas, passadas, guardadas e as malas prontas!!!! Mas alguma coisa me dizia que isso não iria acontecer antes que ela chegasse.
Bem, tratei de lavar e passar todas as roupinhas dela na casa do meu sogro, pois na minha não havia a mínima condição, existiam mais de dez pedreiros trabalhando em meio a muito barro e confusão. Eu lavava e passava sentada, pois a barriga já estava grande e as contrações de Braxton eram constantes. Ah, um detalhe: dias antes, quando tive uma briga com o engenheiro que construiu a minha casa, coincidentemente, eu comecei com essas contrações. O médico receitou um remédio para intimidá-las. Relutei muito antes de começar a tomar, pois queria que tudo seguisse o seu curso. Hahahahaha, um belo dia, quando fui tomar o remédio, percebi que eu estava usando o envelope errado. Durante muito tempo eu tomara Ácido Fólico pensando ser Nifedipina. Kkkkkkkkk. Laura nasceria naturalmente, na sua hora. Mas eu sentia que ela não estava mesmo muito disposta a esperar. Eu e o Wilson conversávamos com ela e pedíamos que adiasse seus planos o máximo que pudesse, para encontrar tudo do jeito que sonhávamos lhe ofertar.
Na 36ª semana, arrumei nossas malas. Na 37ª já havia deixado tudo encaminhado no trabalho. A cada dia, despedia-me dos colegas e dizia: “Não sei se volto amanhã”. Um sentimento dúbio habitava meu coração: de um lado, o desejo enorme de ter minha filha nos braços, poder olhar em seus olhos, uma curiosidade imensa de saber como ela devia ser; de outro, a vontade que ela ficasse mais umas três ou quatro semaninhas guardadinha, esperando o mundo cá de fora se ajeitar. Eu estava muito nervosa e insatisfeita com toda aquela situação da obra cuja previsão de término era para quinze dias após o início e já se estendia por quase sessenta, sem previsão para acabar.
No dia 10 de abril, faltando dois dias, portanto, para completar a 38ª semana, dei um tempo nas preocupações. Deixei a faxina da casa de lado e fui para o salão. Cortei cabelo, fiz sobrancelha, unhas do pé e da mão. Passei o dia todo lá.
Cheguei em casa no início da noite, eu e Wilson tivemos uma pequena discussão por causa dos pedreiros e fui dormir. Ele me chamou para rezarmos juntos, como fazemos todas as noites, mas fingi que já estava apagada e acabei mesmo apagando. Apagando em termos, pois havia duas noites que não dormia bem por causa de uma gripe forte, com nariz entupido e dor de garganta. Às 7h43m da manhã de um lindo domingo ensolarado, acordei com uma água molhando a cama. Levantei-me num pulo e, de imediato, imaginei que a bolsa havia se rompido. Dei uns cutucões no Wilson e fui para o banheiro. A água começou a jorrar pelas pernas abaixo. O Wilson, ainda na dúvida, chegou a cheirar a cama molhada para ter certeza de que não era xixi. Já no box do chuveiro, percebi que o líquido era clarinho e viscoso. Fomos inebriados por uma imensa e indescritível emoção. Abraçamo-nos e nos beijamos. Era dia de Culto no Lar (fazemos todos os domingos religiosamente). Neste, nossa oração seria em local e forma diferentes. Nossa Laurinha ia, enfim, chegar. Não tínhamos mais dúvidas.
Lembramos da palestra que assistimos para pais grávidos, em que o obstetra avisava: “após a bolsa rota, não há por que se desesperar”. Muitas horas ainda deveriam separar aquele momento do instante em que teríamos nossa filha em nossos braços. Tomei um belo banho e liguei pra Stéfanie, minha amiga enfermeira obstetra que havia avisado: caso a Laura decidisse chegar num domingo ou durante alguma noite, ela acompanharia o parto, o que me daria, sem dúvida, muito mais segurança.
Stéfanie também me acalmou. Disse que não precisava correr. Ela faria uma prova e lá para o meio-dia me ligaria para saber como eu estava. Eu falei do meu temor: caso não houvesse dilatação, com a bolsa rota, eu não seria admitida na Casa de Parto do Sofia e meu sonho de Parto Natural iria pro ralo. Poderia me conformar com um Parto Normal na maternidade do hospital se não quisesse seguir para o Hospital particular, onde seria atendida pelo convênio, mas certamente com a indicação para uma Cesariana. Stéfanie também me tranqüilizou quanto a isso. Disse que eu poderia sim conseguir a dilatação.
Pedi ao Wilson que fosse à padaria e comprasse um belo café da manhã, digno de comemoração. Sabia também que precisava me alimentar bem, pois o dia seria de muito trabalho. Enquanto isso, acabei de checar a mala: velas, incensos, CDs, câmera fotográfica. Ah! Tinha ficado de ligar para a prima do Wilson, a Soraia, para pedir uma câmera de vídeo emprestada. Não sei por que botei na cabeça que ela tinha e fiquei tranqüila. Mas ela não tinha nada. Então, na saída, batemos na casa do Renato – um amigo que mora de frente aqui de casa – e pedimos a câmera fotográfica dele emprestada. Pelo menos seriam duas câmeras. Uma ficaria de reserva caso a bateria da minha (que não havia sido recarregada) falhasse. Ainda deu tempo de tirar uma foto na porta de casa, com várias toalhas de banho entre as pernas e malas à tira-colo. (a que ilustra este post).
No caminho, ia lembrando ao Wilson de todo o procedimento que deveríamos adotar. Ele precisava comprar sucos e energéticos doces para eu tomar durante o Trabalho de Parto. Deveria lembrar-se de acender as velas, colocar a trilha sonora, mas, o principal, teria ainda que dar um pulinho em alguma loja de shopping pra comprar uma piscininha de plástico. É. Temia que o quarto da banheira estivesse ocupado. Pedi muito a ele também que não corresse no caminho, pois me lembrei do médico da palestra dizendo que os índices de acidentes no trânsito às vésperas de um parto eram maiores que os casos de nascimentos de bebês antes da chegada à maternidade.
Chegamos ao Sofia por volta das 9 horas. Eu me sentia flutuando!!! Finalmente era o grande dia, sabia que muitas surpresas e inúmeras alegrias me aguardavam. Enquanto o Wilson estacionava o carro, fui ao balcão de atendimento e informei a recepcionista de que minha bolsa estourara. Perguntei quanto tempo eu podia esperar. Ela disse que até 12 horas! (Que nada, depois tomei conhecimento de que na Europa esperam até 4 dias, sem nenhum inconveniente para mãe ou para o filho!). Fiz minha ficha e, feliz, respondia a todos que perguntavam: “Sim, minha filha vai nascer hoje. Minha bolsa estourou e eu não sinto nada. Mas já fazem mais de duas horas, preciso ser atendida com prioridade (rsrsrs). Tenho todos os exames em mãos e uma gravidez que não deixou a desejar. Perfeita”. Queria logo falar com o médico que fazia a admissão para garantir vaga na Casa de Parto e, se a sorte me ajudasse, no único quarto que tinha banheira de água.
Quando a enfermeira me examinou, a decepção. Eu não tinha um só centímetro de dilatação. Contei a ela da minha opção pelo Parto Natural e naquele instante me veio, como num filme, a imagem dela me dizendo que eu precisaria desejar aquilo com todas as forças do meu coração. Sim, era ela!!! A mesma enfermeira que dias antes me aconselhara. Lembrei a ela da nossa conversa. Ela sorriu e telefonou para a Casa de Parto. Em poucos instantes a enfermeira obstetra estava lá para me ouvir e dar o seu veredicto: deixaria que eu ficasse ou me mandaria de volta pra casa.
Chegou uma mulher linda, de expressão forte, olhos azuis e sensíveis. Sybille era o nome dela. Era uma enfermeira alemã que atendia na Casa de Parto. Só d’ela me olhar, percebi o quanto amava sua profissão. Senti-me muito segura naquele momento e clamei a ela que me deixasse ficar. Ela disse que não poderia me admitir sem os quatro centímetros de dilatação, mas que se eu quisesse, poderia ter minha filha ali mesmo na maternidade, por meio de Parto Normal. Se eu escolhesse, poderia inclusive ser sem a anestesia, como na Casa de Parto. Mas eu me lembrei do Dr. Hemmerson me dizendo que o parto ideal é aquele em que as condições seguem o desejo da parturiente, que o mais importante naquele momento seria minha privacidade... Minha liberdade de escolher a melhor posição, de comer e beber, de gritar, chorar, gemer... Sabia que na maternidade do Sofia eu poderia ter um Parto Normal, o que provavelmente não aconteceria no Hospital privado, que seria minha outra opção. Mas ali também, eu teria que dividir a sala de pré-parto com outras tantas grávidas, ficaria no soro e teria meu parto induzido por ocitocina ou coisa que o valha.
Notei que Sybille me olhava firme nos olhos, mas por trás daquela figura forte transparecia um coração de mãe, um coração de ouro. Disse a ela que iria andar pelo estacionamento do hospital por quanto tempo fosse necessário. Faria meus alongamentos, meus exercícios de Yoga e que mais tarde voltaria com os tais quatro centímetros de dilatação. Que ela esperasse por mim e reservasse a minha vaga.
Sybille sorriu, disse que a vaga ela não podia reservar, mas que eu voltasse de uma em uma hora para ela monitorar o bebê e avaliar o andamento do caso. Claro, quase pulei no pescoço dela de tanta felicidade. Tinha certeza que tudo ia dar certo. Tudo bem que eu não iria direto para um quarto lindo, todo preparado para o Trabalho de Parto, minha série de respirações seria no pátio mesmo do hospital, entre carros, buzinas e ambulâncias, mas com os quatro centímetros ganhos, ninguém me segurava. Ela sorriu novamente e aconselhou que eu fosse passear, almoçar, me distrair até que Laura decidisse a que horas iria chegar.
Eu e Wilson saímos saltitantes de tanta felicidade. Resolvi fazer um lanche por ali mesmo, pois, não sei se por força do pensamento, minhas contrações começaram. Ah, antes um detalhe, acho que também foi fundamental (uma ajudinha extra à força da mente): dei uma passadinha no banheiro para fazer coco. Pensei que seria bom esvaziar logo ao máximo o meu intestino e, sentada no vaso, lembrei-me de que o ato da amamentação estimulava a produção de ocitocina e, por conseqüência, as contrações uterinas. Não pensei duas vezes. Estava ali o meu primeiro passo e com os dedos das mãos pus-me a estimular os bicos dos seios por longos minutos até que começaram as primeiras cólicas e, satisfeita, deixei o banheiro e fui passear, como aconselhara Sybille.
Andávamos pela rua do hospital e íamos a todas as lojas procurando pela piscina. Fomos até em uma loja de materiais de construção. Claro, eu tinha enorme prazer em dizer a todos o motivo pelo qual eu procurava por aquele produto inusitado: estava em Trabalho de Parto e precisaria da piscina para parir. Ligamos pra família do Wilson e avisamos que o dia seria longo. Que não precisava se preocupar. Laura chegaria naquele dia e assim que tivéssemos a boa notícia, ligaríamos de volta.
As dores começaram a se tornar mais freqüentes e a cada vez que vinham eu me sentia mais feliz. Sorria e dizia pro Wilson que precisaríamos voltar para o estacionamento do hospital, pois já estava ficando estranha aquela minha forma de andar pelas ruas do bairro. De volta, eu caminhava em ritmo frenético, subia e descia escadas, sentava, me alongava, fazia as respirações que Virgínia me ensinara e, a cada contração, parava, curtia, esperava ela passar.



Às 12hs eu já sentia uma dor terrível. Procurei pela Sybille e mostrei minha barriga ficando dura. Disse a ela que parecia uma cólica de vontade de fazer coco, ela olhou e disse que aquilo não eram contrações de verdade, não eram eficientes, e que muito caminho ainda havia de ser enfrentado. Fiquei por lá mesmo, diante da mesa de lanches na entrada da Casa, trocando experiências com uma grávida que já tinhas os seus tão desejados quatro centímetros. Confesso que senti inveja, ela tinha dores na mesma intensidade que as minhas, mas apenas aguardava a preparação de um quarto para entrar e curtir o seu Trabalho. Eu ainda ficaria por lá, esperando a dilatação chegar.
Bem, quem chegou foi a Stéfanie, e nessa hora, acho que me entreguei de corpo e alma àquela dor. Foi ficando cada vez mais forte. Acredito que foi neste instante que aconteceu comigo o que eu havia lido em vários relatos: fui transportada a outro mundo, numa espécie de transe. Li no relato de uma linda mulher (que só conheço virtualmente) que essa é a hora em que vamos parar em um planeta chamado Partolândia. E lá fui eu.
Stéfanie chamou Sybille que me mandou entrar para a sala de exames. Fez o toque. Enfim!!!! Que sucesso! Que vitória! Eu havia conquistado os meus tão sonhados e perseguidos quatro centímetros de dilatação. Meu Deus eram ainda 13hs! Sybille se empolgou com a rapidez e eu só pensava nos mais de seis que faltavam. Como eu conseguiria sobreviver até lá? Brinquei com Sybille que iria desistir, que me mandassem para a maternidade e me aplicassem soro, ocitocina, peridural, tudo o que eu tivesse direito para não sentir mais dor. Ela sorriu e disse que minha batalha estava apenas começando.
Não havia vaga na Casa de Parto, mas linda, mandou-me tirar a roupa e permitiu que eu ficasse lá, no banheiro da sala dela, debaixo do chuveiro, sobre a bola de pilates. Nesse momento uma força imensurável me dominou. Conscientizei-me de que Sybille havia entendido tudo! Ela estava do meu lado. Eu poderia gritar, urrar, implorar pela transferência e pela anestesia. Ela não o faria. Sabia para o que, de fato, eu estava naquele lugar. Silenciosamente nos tornamos cúmplices, amigas de longas datas. Em momentos mais duros de contração, ela sentava-se do meu lado sob o chuveiro, segurava as minhas mãos e ia dizendo o quanto admirava minha força, minha coragem... Eu retribuía em silêncio. Abraçava seus braços, fechava os olhos e me deixava ficar assim segura e feliz com toda aquela dedicação.
Mais uma vez, Virgínia se fazia presente. Nos momentos mais difíceis, eu fechava os dedos das mãos sobre o polegar e punha em prática a respiração que ela me ensinara. Sybille se mantinha importante, ensinava-me com palavras a bendizer a minha dor! Às vezes me deixava só, curtindo aquele momento e fugia para o quarto próximo, onde outra mulher vivia também o seu momento de mulher.
Não posso deixar de dizer que meu marido estava por lá, presente em cada quanto, de corpo e alma. Até este momento produzindo, um pouco à distância, nosso ritual. Ele ainda não desistira de conseguir a piscina. Comprava sucos, água e energéticos. Às vezes conferia a temperatura da água e, em outras, simplesmente, me ofertava sua mão. Eu a agarrava com toda a força que ainda me restava.
Finalmente, às 16hs, Sybille nos deu uma ótima notícia. Ela iria providenciar a minha admissão. O quarto da banheira vagara. E só precisávamos esperar a assepsia e a arrumação. Nessa hora, eu sentia tanta dor que me parecia insuportável sair de debaixo d’água do chuveiro para me deslocar até o outro quarto. Lembro que me levantei da cadeira e perguntei se poderia ir daquele jeito mesmo, pelada, correndo pelo corredor. Kkkkkkkk. Sybille não respondeu, apenas me olhou assustada e sorriu de novo.
Ok, enrolei-me na toalha e fui em disparada. Wilson com toda a nossa bagagem foi atrás. Foi maravilhoso mergulhar naquela água quente e perceber que todo o ambiente começara a conspirar a nosso favor. Sybille mesmo trouxe um aparelho de som e deixou a música tocar. Era uma coletânea maravilhosa de instrumentais, alguns ritmos de new age, alguns mantras, umas músicas orientais e o que mais marcou naquelas horas: várias versões para a Ave Maria, muitas delas que foram tocadas na cerimônia e no meu almoço de casamento. Tudo isso era pura oração. O prazer para meus ouvidos misturou-se à penumbra da luz de velas aromatizadas, ao cheiro suave que elas deixavam escapar. Pronto, Laurinha podia chegar.
Confesso que ficar na banheira era a realização de um desejo, mas como neste momento temos que ser pragmáticas, tratei logo de pedir que abrissem a torneira do chuveiro. Era lá que a dor se tornava mais ou menos suportável. E durante horas foi onde consegui ficar.
As contrações só aumentavam de intensidade e se tornavam cada vez mais freqüentes. A dor, claro, chegava a ser insuportável. Ah, a essas alturas, Stéfanie tinha ido até a sua casa e voltado. Ela ficou responsável pelo aparelho sonador e a cada intervalo entre uma contração e outra, vinha escutar o coração do bebê, enquanto o Wilson vinha me oferecer algo para beber. Gente, vocês não têm noção do quanto isso me irritava. É que entre uma dor e outra, o tempo era curto demais e o que eu mais queria nesses instantes era ficar quietinha, curtir o silêncio, escutar o meu corpo e descansar. Só que eu não falava isso pra eles, pois me faltavam forças e eu fazia de tudo para poupá-las. Outra coisa que me irritava muito também é que, quando vinha a dor e eu expirava como cachorrinho (rápido e picadinho), eles ficavam dizendo: “expiração leeeenta e compriiiida”. Que saco, isso não adiantava para sanar a dor! A minha técnica era muito mais eficiente, mas isso também eu não encontrava o momento certo para lhes falar. Queria os dois lá, ao meu lado, mas quietinhos, em silêncio para que se processasse a minha imersão em mim mesma. Contudo, não perdia o controle da situação: se não fosse pelos meus pedidos, não haveria fotos e nem gravação. A despeito de tudo, eu fazia a direção. Hehehehehe. O Wilson me pedia para sorrir. Aí não, aí era demais.
Bem, lá pelas 19h30, joguei o chapéu e pedi, séria, para parar de brincar. Eu achava que não ia mais suportar. As dores eram terriiiiíveis. Comecei a dizer, sem nenhuma convicção, que me levassem para a maternidade e me dessem a analgesia artificial. Sentia-me fraca e perdedora. Mas, mais uma vez, Sybille me mandou ir pra cama, o caminho foi longo e cheio de dor. Ela fez o toque, e constatou: dez centímetros de dilatação. Laura não demoraria chegar. Mas Sybille precisava trocar o plantão e se foi. Lília assumiu o comando e, comigo de volta à banheira, sugeriu que eu ficasse de quatro e fizesse força. Tentei seguir sua recomendação. Mas o corpo fala. Senti que não era a hora e voltei para o chuveiro.
Foram as piores horas que passei. Várias vezes, iniciava em voz alta uma oração e não conseguia chegar até o final. O Wilson, a essas alturas não desgrudava da minha mão. Era ele quem dava prosseguimento à reza quando me faltava a voz. Eu percebia que ele estava muito nervoso e baixinho pedia que ele intercedesse por mim e me transferisse para o hospital. Por sorte e firmeza das profissionais da Casa de Parto, nossas vãs palavras não foram ouvidas. E ficamos nesse ciclo de rezas, idas sofridas à cama para o exame de toque (esses eram os momentos que eu mais temia, pois uma contração comigo de pé, fora do chuveiro, no meio do caminho, era a pior das sensações), muitas massagens na base da coluna que a enfermeira Lília ensinou a ele, com um óleo essencial que ela também providenciara (e que não adiantavam nada, rsrsrs), várias copadas de arnica (que a gentil Lília também me trazia), Stéfanie e seu sonador... Na cama, eu não gemia, eu urrava de dor. E me sentia infeliz por esses momentos de fraqueza, temia que Stéfanie e Lília me achassem escandalosa... Que nada, elas só tinham palavras de incentivo e congratulações. Diziam que o pior já havia passado e que muito em breve Laura estaria nos meus braços.
De repente, dois gritos seguidos de um choro de bebê. Não, não era da pequena Laura. Lembram da moça da mesa do lanche? Acabara de dar à luz no quarto ao lado. Era pura ocitocina pelo ar.
Houve um momento em que olhei para o relógio da parede e já eram 21hs. Então eu perguntei se não havia algo de errado. Quase duas horas já se passara dos dez centímetros de dilatação e a expulsão não se iniciava. Lília disse que se eu quisesse mesmo ganhar minha filha dentro da banheira era hora de entrar na água. E fui pra lá. Nesse momento, ela fez outro toque ali mesmo. Disse que já percebia a cabecinha dela bem na beirinha, e perguntou se eu não queria que ela ligasse um pouco de soro na minha veia. Isso iria me dar forças para chegar até o final. Olhei para Stéfanie, que conhecia os meus desejos, e ela acenou a cabeça dizendo que sim.
Foi a conta de puncionarem minha veia. Veio uma contração, duas, e na terceira senti coroar. O anel de fogo se fizera! Minha filha ia, enfim, chegar. Lília e Stéfanie comentavam: “Olha, o cabelinho dela, que gracinha”. Caí no choro. Deixei que meu corpo agisse. Eu me senti religada ao que havia de mais ancestral em mim. Fiz força para baixo, a maior força do mundo (nessa hora, senti que eu não podia falhar!) e, de cócoras, na banheira percebi a cabecinha de Laura apontar. Confesso que nesse momento senti ainda muito medo de não conseguir ir até o final. Medo de que ela ficasse agarrada, medo de que ela se afogasse, medo ainda de que alguma coisa pudesse dar errado. Fechei os olhos, deixei a cabeça tombar para traz como uma onda, mais uma força. E pude ouvir meu amado Wilson gritar e cair num choro compulsivo: “Graças a Deus, nasceu! Laurinha nasceu!!!!

 Ainda agora meu corpo todo se arrepia. Não há palavras que descrevam tamanha emoção. Eu fora invadida por uma luz celestial, minha filha, nos meus braços, olhinhos abertos e curiosos para o mundo em que acabara de chegar. Abracei Laura, e ficamos nos encarando. Os olhos dela eram incrivelmente vivos. E brilhavam. Lembro que as primeiras palavras que eu disse foram: “Que Deus lhe abençoe, meu amor”. Depois disse a ela que eu e Wilson desejávamos boas-vindas, que estávamos ali dispostos a recebê-la com muito amor para educá-la e conduzi-la nessa sua nova encarnação. E que ela, recém-chegada do mundo espiritual, se incumbisse também de nos mostrar os melhores caminhos a seguir. Formávamos, naquele instante, uma nova família. E seríamos companheiros unidos, dispostos a aprender e a crescer juntos, ajudando-nos uns aos outros, em nossa missão.
E foi assim, às 21 horas e 21 minutos do dia 11 de abril de 2010, após catorze horas de Trabalho de Parto, nasceu meu pequeno grande rebento!!! Laura estreou (re?) neste planeta Terra de Parto Natural, dentro de uma banheira, à luz de velas e sob uma trilha sonora especial! Saiu nadando com os olhinhos espertos e arregalados para o mundo. Em seguida experimentou um delicioso alimento materno, direto da fonte, com o cordão ainda ligado. Ops, duas fontes de alimentação. Papai se responsabilizou por cortar o último fio que a ligava com o ninho onde permanecera por 38 semanas!
Stéfanie e Lília trataram de nos deixar a sós. E lá ficamos os três por uma infinidade de minutos. Observando-nos, nos reconhecendo, nos acariciando, vivenciando o amor pleno.
Depois de um tempo, Lília voltou, entregou Laura nos braços do Wilson, deu-se o momento dos dois. Enquanto isso, fomos pra cama. Era hora da terceira etapa do Trabalho: a expulsão da placenta. Bastou um toquezinho dela, uma leve pressão sobre o meu ventre, e aquela bolsa vermelha saiu. Lília a retirou com cuidado virou-a do avesso e nos mostrou o saco rubro onde Laura permanecera aconchegada e fora alimentada por nove meses. Daí, partiu para os cuidados com a mãe. Precisei de uma pequena sutura, nada que não justificasse cada passo da minha escolha. Enquanto fazia seu trabalho, Lília contava dos partos das netas que presenciara e me alertava: “Não se preocupe, além de ser o hormônio do amor, o mesmo que é liberado durante o ato sexual e o ato de parir, a ocitocina também é o hormônio do esquecimento. Muito mais rápido do que você imagina se esquecerá das dores que sentiu e estará pronta para outra encomenda”. Não sei se naquele instante eu acreditei muito em suas palavras, mas perguntei brincando se ela poderia providenciar uma dose cavalar deste santo remédio para aplicar no Wilson, que pelo visto sofrera mais que eu.
Fui para o chuveiro e tomei um belo e merecido banho. Sentia todos os meus órgãos chocalhando e uma sensação indescritível de dever cumprido. Meu corpo funcionara. E eu estava ali, forte, de pé, sem qualquer resquício de dor. Pronta para ter minha filha de volta aos meus braços e dar a ela uma noite inteirinha de amor. Eu me senti respeitada. O direito de o meu marido participar ativamente do nascimento de Laura fora respeitado. Minha filha fora respeitada em seu direito de ter um nascimento digno, tranqüilo, afetuoso, caloroso, humano, NATURAL.
Depois de mamar por quase três horas ininterruptas, Laura dormiu e só acordou no outro dia. Eu e Wilson fomos até a mesa de jantar e saboreamos uma deliciosa canjiquinha que nos foi servida, enquanto eu telefonava para amigos e parentes.
Laura recebeu Apgar 9 e 10 (Deu vontade de tirar satisfação com a enfermeira: por que roubara um ponto da minha filha? KKKKKK). Pesou 2,705Kg e mediu 49 cm.
Muitas pessoas me perguntam o porquê da escolha. Por que assim é melhor. Por que assim é mais orgânico. Por que assim a natureza quer. Por que assim a criança não sofre, tampouco a mulher. Ela já nasce com o pulmão ativo, nasce na hora certa, na hora que desejar. Nasce nas mãos de quem a ama. Nasce e mama. Mantém-se aquecida nos braços da mãe. Firma logo seus laços com o pai. Nasce e abre os olhos. Nasce ativa, esperta, sem remédio pra curar a dor.
Mamando na primeira hora, o intestino começa a funcionar mais rapidamente, induz, na mãe, a produção de ocitocina e conseqüentemente a expulsão mais fácil da placenta, induz a contração do útero e diminui o risco de hemorragia. O bebê não é agredido pela luz dos refletores, pelo frio do ar-condicionado, pelos aparelhos de aferição de peso e altura, pelas mãos protocolares dos médicos de plantão.
A mulher participa, sente com todo o corpo, mente e espírito.
Era isso que importava: a certeza de que não tirariam minha filha de perto de mim logo que ela nascesse, que não remexeriam nela toda, que não a impediriam da graça de abocanhar meu seio logo nos primeiros minutos de sua chegada, que não impediriam aquele momento único, mágico e sublime do (re) encontro de três almas que se amam e que muito tinham a compartilhar – Laura, Wilson e eu.
Detalhe, lembram-se do meu Plano de Parto? Pois é, esqueci de apresentá-lo às enfermeiras, mas tudo, linha por linha, fora seguido à risca, providenciado por um marido que me ama, por uma equipe que respeita à natureza feminina, pelas mãos de Deus.
Ah, aprendi a bendizer a dor! Sinal divino de que meu corpo trabalhara direitinho.  Depois, fui a saber que o soro na veia sequer fora ligado! Se pudesse, aliás quando eu puder, passaria passarei, novamente por aquilo tudinho!!! Pois é, quanto ao hormônio do esquecimento, posso deixar meu testemunho de que o danado funciona que é uma beleza! No dia seguinte, adorava sentar à mesa de refeição com as outras parturientes e falar sobre como é bom parir, saber delas por quanto tempo estiveram em Trabalho de Parto, onde tiveram suas crias, se na cama, no chuveiro ou na banheira. E planejar o próximo!! (Por mim seriam próximos, mas o Wilson só quer mais um).
Agradeço à minha Laura, por ter confiado e, em um ato de amor e humildade, ter se comprometido a vir a esse mundo como minha filha. Obrigada por guerrear comigo.Tenho a mais clara certeza de que nosso caminho será construído por uma história de muito afeto, cumplicidade e respeito. Por ora, minha missão é educá-la e guiá-la. Dar a ela as condições para crescer no amor, na compaixão, na moral e na ética. Mas, tenho também  clareza de que, grande em espírito, Laura terá muito mais a me ensinar e eu, humildemente, acatarei os seus exemplos.
Agradeço a Deus pelo marido (uma doula mais que perfeita) lindo, maravilhoso, carinhoso, atencioso, cúmplice, companheiro e acima de tudo que acredita nas minhas loucuras e faz outras tantas para realizar os meus sonhos, como fazer uma filha linda e perfeita e me ajudar a parir da forma mais linda e perfeita ainda!
Agradeço a Deus por ter nos confiado uma criatura tão especial que mostrou a que veio ainda mesmo em sua chegada!
Agradeço à amiga Stéfanie que, mesmo falando pra caramba e me importunando com aquele microfone de escutar neném a todo o momento, foi fundamental para que eu me sentisse segura e amparada!
Agradeço à enfermeira Sybille que, nesse primeiro encontro, confiou na minha capacidade, no meu corpo, no meu desejo e guerreou a meu favor. Como até hoje é reconfortante lembrar os olhinhos azuis dela me olhando no chuveiro, segurando as minhas mãos, praticamente lá debaixo comigo, e dizendo que admirava a minha garra, a minha coragem. E nestes momentos, eu apertava o seu braço e beijava suas mãos. A impressão é que nos conhecíamos há anos. E devíamos nos conhecer mesmo.
Agradeço a toda a equipe da Casa de Parto Normal do Sofia Feldman. Ah, como todas as cidades deveriam ter uma instituição repleta de profissionais como essa que, desde a nossa primeira visita, nos mostrou respeito e amor pela vida, pelo ser humano! Lá, onde todos são tratados como iguais, onde a autonomia da mulher reina a despeito de qualquer vaidade e da pseudo-onipotência da medicina moderna.
Agradeço à minha querida Nossa Senhora Aparecida, à minha sogra Zizinha, à minha avó Ana, seres aos quais eu recorria nos momentos mais difíceis. Faziam-me conectar à minha ancestralidade!
Hoje me sinto mais humana. Meu processo encarnatório tem outro sentido. Sinto-me mais útil, mais responsável, mais completa, mais feminina, mais bonita, mais fêmea, mais mulher.