Alguns ecos...

Alguns ecos: a maioria destes textos é tecida de matéria prima que Laura me oferece, e também das várias leituras a que ela me induz, mas que muitas vezes, introjetadas, não consigo nem mais citar a fonte. Contudo todas elas podem e devem ser acessadas por meio dos meus Gadgets.

sábado, 24 de novembro de 2012

Terrible Two... no meio do caminho, um retiro... Beautiful Two, Three, Four...




Aos 13 meses de idade...
Cadê meu anjinho que estava aqui?

B.A.T.E.U  A.S.A.S  E  V.O.O.U........

A famosa Crise dos Dois Anos chegou como um furacão. Foi um tapa na minha cara! Literalmente. 

O título do email que mandei pedindo socorro às amigas maternas: "1 ano e 4 meses: ela grita, bate e SE estapeia!"

Laura teve um nascimento super tranquilo, foi um RN tranquilíssimo, nunca teve cólicas, parece que nunca sentiu dor, só aprendeu a chorar aos 7 meses (qdo descobriu que essa era uma forma de comunicação bastante eficaz), teve muito colo (ainda tem), muito peito (ainda tem), é criada apenas por mim e meu marido. Não temos parentes próximos, nem babás e ela apenas se relaciona com outras crianças socialmente, em raros fins de semana. Laura começou a desenvolver a fala muito cedo. Com 6 meses falou mama e papa. E hoje fala praticamente de tudo. Claro, não formula frases. Mas faz associações, conta histórias, diz o que quer e fala perfeitamente muitas palavras, com referências claras a masculino e feminino, plural e conjugação dos verbos que utiliza. Ou seja, parece-me que não há dificuldades em se comunicar. Do nosso lado, nunca forçamos nada. Mas sempre conversamos muito com ela. Aliás, antes mesmo de concebê-la. Assim foi durante a gestação. E, depois que nasceu, sempre explicamos tudo a ela. Se vamos trocar a fralda, se vamos dar banho, porque precisa comer, etc, etc... Sempre dizemos a ela que confie em nós, porque estamos incumbidos de educá-la, que a amamos muito e que queremos o melhor para ela, etc... Acontece que, de um mês pra cá, ela está tendo comportamentos insuportáveis. Eu e meu marido estamos muuuito tristes, pois jamais imaginaríamos sentir isso, pelo menos tão cedo. Afinal, embora todos dizem que ela seja "muito adultinha", ela é ainda um bebê e, ao mesmo tempo, é tão doce minha menina!!! Faz charminho, me dá vários beijos e abraços espontâneos ao longo do dia, faz carinho e até massagem, sem que eu peça! Mas a história que quero contar começou assim: sempre que contrariada, ela dá gritos raivosos, como se estivesse nos xingando e muito altos. Aliás, a primeira vez que isso aconteceu, ela tinha 5 meses, rs, e foi com a nossa cachorra. A frequência e a intensidade dessas manifestações foram aumentando. Evoluíram para os tapas. Ai os tapas! Na nossa cara.  Eu sempre segurava a mãozinha dela e dizia firme "não pode", "isso não é legal", "isso machuca", "ninguém nunca fez isso com você", "não se pode fazer isso com ninguém". Daí, como observamos que a ação é deliberada, tipo, ela olha nos nossos olhos e lasca o tapa em nossa cara, apelamos para o castigo. Um minuto no berço para pensar, depois voltamos explicamos o porquê e ela nos dá um beijo e faz um carinho como se pedisse desculpas. Hoje ela chega a fazer o movimento do tapa e depois diz não com a mãozinha, ou seja, entende bem porque esteve de castigo, entende que fez algo de errado e mostra que o faz porque quer fazer. O pior é que, agora, ao invés de nos estapear (ai, nem sei o que é pior!), ela estapeia o próprio rosto, sempre que é contrariada, como se estivesse se punindo da vontade de nos bater para expressar o seu descontentamento (bem essa viagem é da minha cabeça, rs!). Eu explico tudo de novo, tento explicar-lhe os seus sentimentos, digo que aquilo é normal, que todo mundo sente raiva, mas que não podemos nos bater ou bater nos outros, digo até que ela pode gritar se quiser. Agora, estou adotando a tática de fingir que não vejo, simplesmente ignoro para ver se surte algum efeito. Eu não sou a pessoa mais delicada do mundo, mas não gritamos com ela, e, claro, jamais levantamos a mão para minha filha. Gente, isso é comum nessa idade? Sei que a fase da birra começa mais ou menos aos dois anos. Mas essa agressividade não é prematura? Não sei o que fazer... Já devem imaginar a nossa tensão a cada vez que ela se aproxima de outra criança, né? Se alguém já passou por isso, conte-me sua experiência, por favor.

Com a experiência das mulheres que me responderam - elas diziam que tudo isso era absolutamente normal -, e, principalmente, com a minha experiência, aprendi um pouquinho... Revi minhas atitudes, me arrependi de quase todas, mas decidi que o mais importante era ME melhorar! Um ano depois, fui capaz de responder a outra materna que passava pelas mesmas questões, com o seguinte email:
Acho que sua filha está descobrindo que é um ser autônomo, com vontades, sensações, necessidades e CAPACIDADES independentes das suas. Está em uma das etapas de um processo, que começou com a crise da separação e vai se tornar mais premente por volta dos dois anos. E, provavelmente, tudo isso (que a gente lê como agressão) seja apenas ela testando a lei da ação e reação (ela bate brincando e tem uma reação de volta), testando a própria força, propondo algum tipo de relação. Bem... pelo que você descreve, não há agressividade (pelo menos ainda), apenas uma brincadeira... 

Nessa parte, lembrei-me da semana seguinte à festa de 2 anos de Laura, quando nos encontramos com os doces Julieta/Léo/Manu, e Laura deu uma "cutucada" na pequena Manuela. Manu chorou. Eu fiquei pra morrer de tristeza e vergonha. Mas vergonha mesmo eu senti foi da minha reação, pois, após me desculpar com os pais, comecei a justificar a atitude da Laura dizendo que ela estava cansada (e de fato estava, não havia dormido e estávamos na rua o dia inteiro; estávamos as duas cansadas). Porém qual não foi minha surpresa quando a pequena-grande respondeu: "Não, eu não estou cansada não. Estou descansada, descansadinha..." e me lascou outro tapa, na cara! Impotente e me sentindo profundamente agredida em meus brios por aquele ser de pouco mais de meio metro de altura, mas com tamanha decisão, ameacei botar de castigo! Ordenei que pedisse desculpas à amiguinha e lá tive outra resposta: "Eu não vou pedir desculpas não. Não vou pedir desculpas nenhuma!". No final das contas, ela acabou pedindo, QUANDO quis. Eu fiquei muito triste e falei sobre esse sentimento por longos minutos com ela.

Percebendo de fato minha tristeza, horas depois, ela me pediu desculpas também e disse que não faria aquilo de novo, pois não queria ver a mamãe triste: "Eu queio a mamãe feiz". Passou uma semana bem diferente, relembrando o acontecido, fazendo questão de afirmar que Manu era muito bebezinha e que era sua amiguinha. Teve até febre. Recuperou a temperatura, transformada. 

Compreendi que, além do desejo de pegar e do descontrole de força, movimentos e intenções, Laura se sentia preterida diante das crianças mais novas. Nossas conversas sobre a Manu e outros bebês, bem como sobre nossa expectativa em ela ganhar e ajudar a cuidar de um irmãozinho ou irmãzinha, fizeram-na entender que poderia exercer com brilhantismo outra função social e continuar sendo amada, da mesma forma. Os carinhos, nos pequenos, puderam então se tornar suaves.

No final das contas, além da alegria por termos superado essa questão, restou-me culpa e vergonha, muita vergonha. Vergonha por não ter compreendido minha filha naquele momento. Culpa por tê-la exposto e a ameaçado com castigo - uma humilhação, de fato. Vergonha por ter me sentido impotente. Mas, mais vergonha ainda por perceber que meu desequilíbrio fora fruto tão somente da minha vaidade. Do desejo insano de ter uma filha bem "educadinha", bem "comportadinha". Ou melhor, seria dizer: bem (con)formadinha! Com as intensidades sob (meu) controle. Muito embora educação seja fundamental.

E assim seguiu-se o email com o qual eu, já "experiente", respondia à outra amiga:

E eu acho que você deveria se concentrar mais na sua reação, que propriamente na ação que ela faz. Pois a forma como você lida com isso é que poderá agregar significados pra ela... Se te machuca, diga isso de forma firme, e diga que não gostaria que ela continuasse fazendo, pois machuca. Sem alterar a voz. Sem imprimir "violência". Se ela insistir, apenas a contenha e tente a distrair para outra brincadeira, outro foco, sem dar muita importância à ação.Pois quanto mais ela conseguir "causar" com isso, mais ela vai gostar da brincadeira e vai agregar importância ao que faz, percebe? Tenho lido muito sobre o comportamento infantil, pois aqui em casa estamos às voltas com uma pequena em plena fase do Terrible Two. E hoje, percebo o quanto eu deixei de acolher de forma apropriada, naquela época. Morro de tristeza e vergonha, quando me lembro de que chegava a colocar Laura por 1 minuto contida no berço, para pensar no que tinha feito. Que bobagem! Ainda bem que sempre há tempo de nos refazermos e sermos melhores. Agora, eu entendo que naquela época ela agia absolutamente sob impulsos, não conforme sua (in)capacidade de entendimento. Não fazia para me desafiar, não fazia para me irritar, muito menos para me machucar e tampouco conseguia associar o "castigo" com o não-fazer da próxima vez. Ok, ela entendia que havia feito algo que não era legal, mas na próxima vez, ela não associava a consequência (ficar presa no berço) com o que estaria prestes a cometer. Simplesmente porque crianças (bebês) dessa idade ainda prescindem de determinadas sinapses nervosas,  e, por isso, agem absolutamente sob impulsos. Seu cérebro ainda não está formado. É físico. São intensas, inclusive, em sua maneira de acariciar. E sobre "castigo"... ai, sem comentários... Péssimo! Quem sou eu, que autoritarismo é este, que faz me julgar no direito de castigar alguém? Claro, não era bem um castigo... era aquele tal "cantinho do pensamento" da super **** (que deveria arder na fogueira)... hahahahaha. Afinal, criança se ensina com amor, com exemplos, com compaixão! A fase que ela está agora é outra. Ela consegue agir com alguma compreensão (não absoluta, claro, mas já tem lá suas motivações racionais) e eu ainda me debato em conseguir entender que não há agressividade por traz de suas ações... Mas, se ainda é difícil para eu compreender dessa forma, hoje eu acolho. Eu a contenho, eu a abraço, e como percebo que agora há sim algum sentimento que move aquela ação, eu tento traduzir para ela o que ela sente. E digo que a frustração dela tem causa, algumas vezes digo que é possível inverter a situação, em outras tento acolher a decepção dela mesmo e digo que nem tudo é como a gente gostaria que fosse. Digo que se ela quiser pode bater na almofada para botar pra fora o que está sentindo, já que não consegue apenas se livrar daquilo falando.... falando...mas não nas pessoas. E sempre digo que ela vai um dia aprender a dizer o que está sentindo sem precisar gritar, bater, porque ela é ser humano e que os seres humanos são capazes disso. Hahahahaha, daí, quase sempre o descontentamento dela passa e ela diz "é, eu sou gente, né mamãe, eu não sou igual a Eti e o Nou  (nossa cachorra e gata)" . Enfim, tento me colocar no lugar dela, sentir o que ela sente e ajudá-la da melhor maneira possível a compreender e se desvencilhar daquela emoção. Às vezes conto como era comigo quando pequena... E ela adora saber e reage a isso. Mas nós estamos em outra fase, eu acho. Como disse, percebo que as ações dela agora são movidas por sentimentos de frustração, de descontentamento, de contrariedade, de raiva e às vezes há violência sim, por que não? 
Daí, quando pensei que realmente tinha chegado a um termo, eis-me escrevendo novamente em busca de auxílio, uma quase auto-análise:

Sabe, na última semana venho me sentindo um lixo... Como é possível olhar para aquele "espelhinho",  ver tanta candura, tanta doçura, tanta beleza, mas, ao mesmo tempo, tantas dificuldades que há em mim (essas sim, há em mim)! Absolutamente em mim! Na hora, não encontro a danada da paciência. A sempre controladora aqui tem, não raro, perdido o chão. Sinto raiva, dor, decepção. Se saio de perto, receio estar abandonando minha “bichinha” em seu (meu) mar de emoções. Se fico, não consigo contribuir. Falo, xingo e, por fim, chego a gritar. Depois, morro de vergonha! De culpa! De remorso! Não tenho conseguido poupar energias nem para brincar... Minha pequena consegue ser encantadora, doce, meiga, amável e carinhosa – uma companheira. Parece-me que o intelectual é um pouco avançado para a idade e o emocional não acompanha. É de uma criança de 2 anos e meio! Talvez, por isso, acaba sendo cobrada por aquilo que ainda não dá conta de responder. Por outro lado, às vezes tenho a impressão de que essa "inteligência" contribui um pouco para que ela seja muito "opiniuda". Tudo ela "sabe", tudo tem que ser do "jeito dela", na "hora dela", com "ela no comando". Cedo muitas vezes, até para que ela possa exercer sua autonomia. Aliás, cedo sempre que acho possível. Por outro lado, penso que pode ser que também exijo muito... Não amiúde, entro numas neuras de que não a tenho deixado ser bebê... Ai! Como dói essa ilusão de que conseguirei um dia ser uma mãe perfeita! Pudera, antes, ser um ser humano em perfeição... Eu fiquei em casa por conta da Laura por 11 meses, com ela no colo, ou melhor, no peito.E até hoje ela tem meu colo,  mama e mama muito. Quando digo sobre não deixar ser bebê, refiro-me a tratá-la como se ela, de fato, tivesse tal maturidade que nós "achamos" que ela tem. Porque, realmente, a linguagem dela é muito desenvolvida. Desde 1 ano que ela fala. E já há mais de 1 ano fala de tudo. Até para reclamar, ela fala de tudo. Categoriza o mundo: masculino e feminino, o que é bicho, o que é objeto, o que é planta, de que material as coisas são feitas... Recita trechos de Romeu e Julieta (rsrsrs), declama poesias de Cecília Meireles e Léo Cunha, solfeja Mozart com uma batuta invisível nas mãos, pede para ouvir Beethoven, reconhece canções de Gilberto Gil ...rsrs... tudo isso é muito sério! Presta atenção em conversas e participa também com seriedade. Tem muita concentração e é obstinada por aprender. Os olhos até brilham! Mas isso não quer dizer que ela saiba expressar seus sentimentos. Embora, para o esbugalhar dos meus olhos, sempre diga:  "Ah, eu vou bater, bater é bonito", ou "Ah, eu vou jogar no chão, jogar no chão é bonito", ou "Ah, eu vou cair, vou machucar, machucar é bom", "Ah, eu vou deitar no chão frio pra ficar dodói, ficar dodói é bom", "Ah gritar não é feio não, é lindo, lindo, lindo, lindo!". Sempre com a voz em soprano... rsrsrsrs. Ai, e como esse "Ah" me irrita! Sempre achei ser muito importante conversar e explicar todas as coisas. E, desde que ela nasceu, fazemos assim. Só que com essa de conversar e explicar, receio passar da conta. Como se esperássemos um entendimento racional por parte dela, quando, na verdade, a fase em que ela está é do sensorial... Portanto, eu sei que não adianta esperar que ela aja conforme o entendimento, pois ela vai agir conforme o seu instinto, na maioria das vezes. E, daí, eu ter consciência disso e conseguir botar em prática... é um longo caminho. Sobre deixa-la sozinha, entregue à fúria, apenas  observando de longe... Uma pedagoga Waldorf, bastante experiente, disse-me que pode não ser legal, pois a criança acaba se perdendo naquelas emoções, sentindo-se abandonada e insegura, quando, na verdade, ela precisa de uma mão para sair dali. Ela aconselha apenas segurar no colo e conter. Em silêncio. Apenas conter. Só que, não raro, isso não funciona também aqui em casa. Se eu a seguro, ela fica mais enlouquecida!
Quando eu consigo manter a calma, eu explico o que ela está sentindo. Se é raiva, vergonha, contrariedade, cansaço, fome... Às vezes até sugiro que ela bata em uma almofada para extravasar. E ela o faz. Mas não posso ficar fazendo isso sempre, em uma reunião de pessoas, por exemplo, senão ela vai viver batendo em almofadas e eu, andando pra todos os lados com uma debaixo do braço... Algumas vezes, só d'eu chamá-la para explicar o que está se passando com os seus sentimentos, ela já me olha e pára de chorar. Escuta, compreende e me dá um abraço em agradecimento. É uma belezura que me enternece! Mas nem sempre consigo agir assim. Principalmente quando a reação dela é de agressividade. Ela não é de birra. É mais de dizer: "eu vou fazer". E isso me tira do sério. E quando saio do sério, perco tudo! Perco a confiança e a segurança que ela sente em mim. As reações dela nesses momentos de "contrariedade" não são propriamente de um bebê... São, de certa forma, sagazes por demais... E é isso que me assusta, e, às vezes, irrita. Porém percebo que irrita porque são os meus ecos. E eu quero dissonar esses ecos que podem influenciar gerações, como vêm me influenciando há décadas... Penso tanto nisso! Especialmente quando decido, loucamente, mudar um ciclo de crueldades, um ciclo que vivi, minha mãe viveu, minha avó... Definitivamente é o que de melhor desejo fazer na minha vida: ser MÃE. E me esforço desesperadamente para isso. Mas o mais desesperador é saber que há de haver um rompimento interno. E eu não sei como fazê-lo... Muitas vezes, quando estou perto, me canso. Agora mesmo, sinto-me tão cansada! Assim como ela, eu também nem sempre tenho controle de mim. Ou seja, eu preciso me educar. Mas essa autoeducação é que é difícil! Bem difícil.... É isso que estou tentando confessar... 

Meu despreparo em lidar com uma criança diferente


Desde que me aventurei por este maravilhoso mundo da maternidade, os objetos de estudo aos quais me submeto pululam aos meus olhos, invadem meu coração e me consomem horas e horas de leitura, análise, discussão e reconhecimento.
Não foi diferente com a chamada Terrible Two - a Crise dos Dois Anos, quando tudo, a princípio, é movido pelo "NÃO!". Mas não é um "não" qualquer, daqueles cujo objetivo é negar. Agora, o não é afirmação. É o sim para o "EU" que desperta, se impõe!

Confesso que ganhei na loteria! Laura foi uma bebê, como não canso de dizer, que sequer chorava. Não teve cólicas, dores de ouvido, nunca ficou doente, sempre comeu bem, não raro dorme a noite inteira, é muito esperta, inteligente e é linda, linda mesmo! Generosa e carinhosa! Bem, o que mais uma mãe poderia querer?!

Uma filha que, do alto dos seus 95 cm, é capaz de impor suas vontades, com argumentos, uma capacidade incrível de concatenação e uma linguagem absurdamente desenvolvida. Sim, o que mais eu poderia querer? 

Minha filha, com 2 anos de idade não faz birra! Não se joga no chão, não chora por horas inconsolavelmente, não morde, não perde o apetite e não deixa de comer, de brincar, não nega entrar no banho, nem sair...não fica doente! Mas... para o meu susto e desespero, ela argumenta, grita, e argumenta! Argumenta muito! E insiste nos seus infinitos "porque (s)". 

Bem, eu já havia estudado sobre essa fase e já havia também me preparado para lidar com ela: contê-la, abaixar-me, olhar nos olhos, explicar, explicar, explicar de novo, para, às vezes, ignorar. Mas confesso que tamanha determinação da pequena-grande ariana me tirou dos eixos! Escrevi quilômetros e quilômetros de emails para as listas, até descobrir que a personalidade forte da minha filha me desafiava e que o baixo grau de tolerância à frustração era MEU, não dela. E que não havia nada de agressivo em suas ações!

Suspeitei também que talvez, para o próprio bem, ela devesse ser menos esperta. Pois sua sagacidade e perspicácia me provocava esperar por comportamentos mais adultos que a pequena criança não poderia me dar.

Até que, dia desses, fomos convidados a participar de um retiro infantil. Sim. A ideia era deixar os pequenos nas mãos de três grandes-poderosas maternas em atividades da antroposofia e da yoga, enquanto nós, os pais, pudéssemos fazer o que quiséssemos. A possibilidade de, pela primeira vez em 32 meses, fazer algo sozinha, ou com o Wilson apenas, fazer algo só para mim, era fantástica. Ainda mais sabendo que Laura estaria tão bem. 

Primeiro veio o medo. E com ele, mais um email às amigas-maternas:
Também estou morrendo de medo de como será a relação da Laura com as outras crianças. Ela parece ignorar qualquer regra de convívio em grupo (tem 2 anos e meio e nunca conviveu com mais de 1 criança de cada vez). Também morro de medo, de medo.... de medo de ter vergonha e muita vergonha de ter medo de ter vergonha! Conversei com uma das organizadoras esta semana, e ela me disse que eu é quem preciso relaxar, olhar para mim, não para Laura. Que pelo que ela viu da minha menina, não há nada de errado com ela e apenas com a tensão que trago em meu coração... Bem... continuo com vergonha do medo que sinto de ter vergonha, medo de incomodar... enfim... vergonha de olhar pra mim e descobrir que isso, no fundo, para além de não querer incomodar (O QUE É REAL) é também pura vaidade!!! Ai que vergonha!
Por fim, decidimos ir. E sabe o resultado? Voltamos absolutamente transformados...
Eis, mais um relato:

O Retiro Jai Arte foi transformador! Descobri (ops!) eu sou normal, minha filha é normal, minha família é normal! Todas as crianças, por uma vez que fosse, tiveram seus momentos, rsrsrs… E, cada vez mais, pude perceber como o controle é nosso – mães e pais. Em um dos dias lá no encontro, ela voltou da caminhada – após o almoço – e quis mamar. Eu sabia que era hora do soninho (sagrado de todos os dias). Seus olhinhos, sua respiração mais lenta, suas mãozinhas acariciando o mamá não me deixavam dúvidas. Mas não dei ouvidos à sua comunicação. Queria que ela aproveitasse todas as atividades. Insisti e entrei com ela na salinha da oficina. No meio da atividade, sem motivos aparentes (pelo menos aos olhos dos outros), ela gritou, gritou muito alto. Daqueles gritos que me tiram do sério. Parecia querer “agredir”. Apenas “parecia”. A desculpa que me dera fora que a cola sujava suas mãozinhas… e ela não queria ter as mãos sujas! De forma rara, eu não me envergonhei com a “agressão”. Eu havia entendido o recado. Fora preciso atendê-la em sua necessidade. Carreguei-a no colo. Levei-a para lavar as mãos e expliquei: “meu amor, você está com soninho”. Laura pediu então para voltar à sala, despediu-se dos amigos e disse que ia “mimi”. Fomos para o quarto, ela ainda chorou um pouco debaixo do chuveiro, enquanto eu cantava para ela. Mamou, dormiu. Mas, mais uma vez, eu não respeitei os limites dela. Acordei-a, pois já era hora do jantar. Ela não quis comer com o grupo. Voltou para o quarto chorando de novo. Dessa, fora a vez do pai. Fui para a contação de histórias e deixei-a com ele, para que NOS acalmássemos. Minutos depois, voltei ao quarto e lá estavam eles me esperando para terminarmos a noite, de volta, na companhia dos amigos e das histórias… Aprendi mais uma vez! E no dia seguinte, tudo foi perfeito. Ela brincou, compartilhou dos momentos QUE QUIS, dormiu seu sono tranquilo e nos sentimos mais inteiras, mais felizes… O bom é que há sempre uma oportunidade!

Nesse convívio, além de perceber que Laura não tinha comportamento destoante, pude observar como os outros pais mantinham a naturalidade diante do comportamento de seus filhos e como essas crianças conviviam em harmonia! Em Laura, enxerguei a menininha doce e amigável, capaz de relaxar, fazer yoga, produzir, imaginar, brincar com crianças mais velhas e crianças mais novas. Querida por todos! 

"Sua filha é um doce, está super preparada para a escolinha. Não há nenhuma agressividade no comportamento dela. Ela é uma lady!" - ressoam ainda os tão esperados comentários na minha cabeça, como se fossem um decreto ao meu coração. Conclusão que eu já havia chegado, mas precisava de uma confirmação! Observar-nos nos outros. Sim, quando a gente não convive em grupos, perde-se os parâmetros e as expectativas e as nossas exigências se tornam muito maiores.

A partir daí, em meio às crises, tenho procurado apenas ME conter. Respiro, e digo: "Vamos respirar? Respire fundo!” Ela respira junto. Daí, continuo: "Acha que ainda precisa gritar?". Às vezes, ela ri (com aquela capacidade que só ela tem de rir de si mesma) e diz que não. Outras, solta apitos que chegam a ensurdecer meus ouvidos. Depois sorri e diz: "Ponto! Agoia já tá bom. Guitei!". Ontem, ela estava sozinha na sala e parece-me que caiu. O pai ouvindo uns gritos de raiva foi ver o que acontecia. Laura respirou fundo, olhou para ele sorrindo e disse: "Eu estava picisando dar uns gitinhos aqui!".

Então, é isso: 'há poucos meses Laura dava os primeiros passos e eu me oferecia com muita paciência para apoiá-la. Dava minhas mãos a ela e suportava os desequilíbrios. Aprendi que com as emoções o caminho deve ser o mesmo e a paciência infinitamente maior. Minhas mãos estarão sempre aqui, para que ela as segure quando for necessário!'¹

Às duras penas, descobri que minha filha de dois anos e sete meses, quando grita e diz "não", não está querendo testar os meus limites, tampouco me desafiar, mas apenas expressar sua liberdade crescente. E eu, deixando-me perder no vale das vaidades, pensava que, com aquele extenso vocabulário e aquela desestabilizadora capacidade de articular seus pensamentos, Laura deveria ser capaz de agir conforme... conforme nem mesmo eu sou capaz. 

Hoje percebo que minha filha é uma criança. Simplesmente criança. Uma criança linda e normal como outra qualquer. Que precisa dos meus cuidados práticos, mas precisa mais ainda do meu acolhimento e da minha capacidade de traduzir... Traduzir para mim, traduzir para ela o que ela sente, o que ela pensa, e o que ela, de fato, quer. Precisa de uma mãe que a desarme com gentileza, não de uma mãe que a puna. Precisa de uma mãe observadora, capaz de intervir, desviando o foco do problema e mudando o rumo da história, prevenir ao invés de remediar. Precisa de exemplo de maturidade emocional!

Descobri que eu não quero uma criança obediente. Quero um ser humano que se sinta seguro, amado, respeitado e que, em consequência de tudo isso, colha amor, segurança e respeito como consequência de suas próprias ações. Estar atenta às necessidade básicas de sono, fome, sede, frio e calor. Mas, principalmente, às necessidades sutis. Dar a ela a possibilidade de escolhas e de decisão. Então, se a menina linda que tanto me ensina com sua infinita capacidade de amar e de perdoar, com sua curiosidade contagiante, autenticidade e sinceridade no olhar, quer sair com o pé vermelho de uma bota e o pé marrom da outra... Que devo eu fazer? Vamos lá dar créditos à sua capacidade de sentir-se bem. 

Mais que concluir que minha filha não é anormal e que as minhas expectativas é que estavam equivocadamente acima do normal, consegui entender que ela é igual a mim, igual a qualquer outro ser humano, que precisa ser ouvida, precisa se sentir acolhida, precisa ter suas necessidades físicas atendidas mas, sobretudo, precisa se expressar! E eu?  Ah, eu preciso de tanta coisa... Preciso aumentar o MEU limite de frustração com a independência dela. Preciso aceitar, com paciência, este seu processo de independização. Aceitar que ela está crescendo. Aceitar e confiar em suas capacidades. Compreender sua intensidade. Preciso, de fato, estar disposta e disponível para ajudar! Eu preciso agradecer a Deus a honra e a graça por me conceder acompanhar um serzinho tão "perfeito" (como todos nós seres-humanos), e pedir a ela perdão. Muito perdão! Agradecê-la por confiar em mim e por me dar a oportunidade de aprender a ser MÃE!

Meu caminho agora é esse, olhos nos olhos:
(não por acaso, sinto que a "crise" já passou! juro que passou!)


Ponto Zero) Equilíbrio.

Equilibrar-ME, pois o equilíbrio dela é reflexo do MEU. Identificar o que eu sinto. As minhas necessidades. As minhas dificuldades. As minhas frustrações. O meu desamparo.


1) Compaixão.

Sentir com ela o que ela sente. E, com isso, deixá-la saber o que eu sinto também. Como eu agia e como o mundo me retribuía quando eu tinha a sua idade! Como eu reagia e como isso ainda hoje reverbera em mim. Construir nossos "vínculos a partir da nossa REALidade emocional"².


2) Audição.

Escutar primeiro o que ela sempre tem a me dizer: suas motivações, suas justificativas, suas propostas. Respeitá-la.


3) Tradução.

Compreender o que ela, verdadeiramente, deseja, sem julgar. Nomear para que ela entenda seus sentimentos e suas necessidades.


4) 
Conecção // Disposição.
Oferecer a ela minha disponibilidade para ajudá-la, com o mínimo de "não(s)" e a maximização dos "sim(s)". Requer mais dedicação com sinceridade, presença emocional para além da física.

5) Confiança.

Confiar que ela é capaz de ter desejos, fazer escolhas e se sentir segura com isso. Aceitar que o processo é saudável e a independência... ah, a independência é inevitável.


6) Transição.

Prepará-la para as mudanças de ambiente, de atividades, de tempo e espaço. Para as minhas mudanças de planos e de humor. Chamar atenção para outro foco e desviar da questão-problema.


7) Foco e economia.

Importar-me com o que realmente importa. Ceder às vontades dela sempre que possível. Não supervalorizar o verniz social. O que os outros pais vão pensar não é o mais importante.


8) Adequação.

Saber que o adulto sou eu e ela a criança ÚNICA da história. Evitar os embates.


9) Humildade.

Assumir que eu também erro, voltar atrás e me desculpar quando necessário. Abaixo a soberba e o autoritarismo.


10) Amar.

Colocar o amor à frente de toda e qualquer ação!




Algumas das muitas leituras que me inspiraram (a segui-las ou contrariá-las), e que, de certa forma, foram fonte para esse texto: