Alguns ecos...

Alguns ecos: a maioria destes textos é tecida de matéria prima que Laura me oferece, e também das várias leituras a que ela me induz, mas que muitas vezes, introjetadas, não consigo nem mais citar a fonte. Contudo todas elas podem e devem ser acessadas por meio dos meus Gadgets.

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

Terceiro Capítulo: Sim, eu tenho peito!

Amamentar é uma característica natural, de toda mamífera ou, pelo menos, deveria ser. Mas o ato, que é, sobretudo, uma forma de sobrevivência da espécie, requer muita paciência, disponibilidade e até bom humor. É preciso persistência.
É claro que muitas mulheres que deixam de amamentar o fazem por sérios problemas fisiológicos, mas são raríssimas essas situações. O fato é que à maioria faltam mesmo informações. Informações de que não existe “leite fraco”; de que o bebê não aprende a mamar da primeira vez que é colocado no peito; de que esse é um processo de aprendizagem para as duas partes; de que nem sempre que o bebê chora é porque está com fome e que, portanto, toda mulher produz a quantidade de leite necessária à demanda do seu filho; de que o leite não “seca” assim de uma hora para outra sem que haja uma solução com um pouco de obstinação; de que, a despeito de todo trabalho, as vantagens de se dar o peito são absurdamente maiores que a opção pelo aleitamento artificial.
Mas, além de obter informação, é imprescindível que a mulher se sinta compreendida e apoiada pelos amigos e família. Gente pra dar maus conselhos, fazer comparações e cobranças é o que não falta. Amamentar pressupõe estar disponível aos horários e exigências do bebê (e cada um é de um jeito). Isso significa muitas vezes atrasar encontros, desmarcar passeios, deixar de fazer sala para visitas. Estar indisponível em certos momentos para atender telefonemas. Às vezes também deixar de dormir e até comer comida fria. Daí a minha sugestão (sou maruja de primeira viagem, mas funcionou): tranque-se com seu bebê, desligue-se do mundo e se sinta à vontade. Procure informações, aprenda o essencial e, na Hora H, vocês saberão o que fazer.
É claro que muitas dúvidas irão pintar. Por exemplo, seria ótimo se cada seio fosse transparente e viesse com dosador. Você saberia exatamente quantos mls/dia o seu bebê estaria mamando. Mas se seu filho faz coco e xixi regularmente, não apresenta sinal de desidratação e está ganhando peso, parabéns ele está se alimentando bem. E o processo é assim, quanto mais o bebê suga, mais leite você produz, uma relação de procura e oferta mais que perfeita que só o tempo pode ajustar.
Nos primeiros meses, é normal que a criança mame com freqüência e horário irregulares. Com Laura foi assim: ela não acordava para mamar. Dormia feito uma anja. A noite toda e o dia inteiro. Foi preciso que eu interviesse e, nos primeiros dias, a acordasse de três em três horas. Até hoje não sei se agi corretamente. Foi indicação dos médicos, mas, no meu coração de mãe, naquele momento, a recomendação encontrou acolhida. Era duro! Dava dó! Mas eu o fiz. Pensava estar fazendo o melhor para ela.
Laurinha parecia uma ratinha, de tão pequenininha. E antes de cada mamada, era necessário que eu a despisse por completo e fizesse uma série de cosquinhas. Ficávamos as duas assim, peladas. In natura, mãe e filha...
Aos poucos, ela mesma começou a expressar sua necessidade. E hoje, graças a Deus, minha filha mama muito. Mama a hora e o quanto quer. Mama de manhã, às vezes a manhã toda. Mama durante a tarde. À noite, tem diminuído as mamadas. Mama por volta das 23hs e depois só acorda no dia seguinte, às 7hs da manhã, muito bem disposta a mamar de novo e recomeçar um dia inteirinho de mamadas. Assim nos sentimos felizes. Além de saciar a fome dela, saciamos nossa necessidade de estarmos juntas e nos amarmos.

Self-service ou Livre Demanda
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que a criança seja amamentada sem restrições de horários e de tempo de permanência na mama. Até os seis meses de idade, com exclusividade, e até os dois anos, como alimentação complementar. Essa ausência de restrições é o que se chama de Amamentação em Livre Demanda. A criança aprende a “buscar” o suprimento do tamanho da sua necessidade. Aqui em casa, vamos nos mantendo assim... livres. Outro dia, minha avó disse que estou deixando Laura “mal acostumada” (como assim????), pois não se passara meia hora de uma mamada e ela estava de volta ao meu peito para mamar. Perguntei a ela se ficaria satisfeita caso tivesse sede e alguém a impedisse de beber água, caso tivesse fome e alguém a impedisse de comer. E emendei: da primeira vez ela bebera água, agora é hora do jantar.
Aliás, sabe que isso faz sentido? O leite do início da mamada, o chamado leite anterior, pelo seu alto teor de líquido, tem aspecto semelhante ao da água de côco, mata a sede. E ele é muito rico em anticorpos produzidos contra os agentes infecciosos com os quais a mãe já teve contato. Já o leite do meio da mamada tende a ter uma coloração branca opaca devido ao aumento da concentração de caseína. O leite do final da mamada, o chamado leite posterior, é mais amarelado devido à presença de betacaroteno, pigmento lipossolúvel presente na dieta da mãe. Ou seja, a concentração de gordura no leite aumenta no decorrer de uma mamada. Assim, o leite do final é mais rico em energia (calorias) e sacia melhor a criança.
De forma que não há necessidade em se iniciar os alimentos complementares antes dos seis meses, podendo, inclusive, haver prejuízos à saúde da criança, pois a introdução precoce de outros alimentos (até mesmo de chazinhos e água) está associada a maior número de episódios de diarréia; maior número de hospitalizações por doenças respiratórias; maior risco de desnutrição, se os alimentos introduzidos forem nutricionalmente inferiores ao leite materno; e menor duração do aleitamento.
Além disso, na amamentação, os sabores e aromas de alimentos consumidos pela mãe acabam sendo transmitidos para o bebê, de forma que o leite materno oferece diferentes experiências que vão refletir nos hábitos alimentares da criança e, em conseqüência, do adulto. Ou seja, crianças que mamam no peito aceitam melhor a introdução da alimentação complementar. Sem falar que o aleitamento materno diminui o risco de alergias; diminui o risco de hipertensão, colesterol alto e diabetes; reduz a chance de obesidade; provoca efeito positivo na inteligência; é responsável por um melhor desenvolvimento da cavidade bucal da criança. E, em contrapartida, a mulher que amamenta está mais protegida contra osteoporose e diversos tipos de câncer. Mas, se tudo isso ainda não for suficiente, amamentar ainda auxilia a perda de peso adquirida com a gravidez, já que o organismo da mulher precisa “queimar” calorias na produção do leite.
Como se vê, amamentar é muito mais que encher a barriga. É um processo que envolve interação profunda entre mãe e filho, com repercussões no seu desenvolvimento cognitivo e emocional. Além de constituir a mais sensível e eficaz intervenção para proteção e nutrição, é também a mais econômica forma de alimentação
Plano de Amamentação
Muito embora na minha família quase todas as mulheres dissessem não à amamentação – alegando que não tinham leite – nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de não amamentar minha filha. Também sempre ouvi de muitas primas dizerem que não amamentaram seus filhos para não deformarem seus seios. Gente!! Meus seios são o que mais gosto no meu corpo e nunca também passou pela minha cabeça que amamentar pudesse torná-los disformes.
Um dos pontos fundamentais em meu Plano de Parto era poder amamentar Laura no primeiro momento de sua chegada. E isso pesou muito para que eu escolhesse o Parto Natural, queria ter a certeza de que minha filha não sairia dos meus braços antes de nos desfrutarmos da primeira mamada.
Essa decisão, eu tomei a partir dos diversos artigos que li. Eles me fizeram entender que, além de contribuir para a “descida” mais rápida do leite materno - que pode demorar até três ou quatro dias -, fortalecer os laços afetivos mamãe-bebê, e transmitir segurança àquele serzinho que acabara de chegar a um ambiente totalmente estranho (onde a partir de então precisaria que alguém satisfizesse suas necessidades, ao contrário do ambiente uterino, onde tinha tudo o que precisava sem esforço algum), Laura estaria recebendo logo “sua primeira dose de vacina” (devido à elevada presença de anticorpos no colostro), além de uma espécie de “elixir” (vou chamar assim) que a prepararia para as futuras refeições, claro, no peito da mamãezinha.
É que uma pesquisa realizada pela Queen Mary, Universidade de Londres, revelou uma substância chamada PSTI (pancreatic secretory trypsin inhibitor - em português, inibidor da secreção da tripsina pancreática) que protege e repara o intestino delicado dos recém-nascidos. O PSTI impede que o pâncreas seja danificado pelas enzimas digestivas que produz. E, segundo os cientistas, apesar de ela ter sido encontrada em todas as amostras de leite materno, está presente em níveis mais altos no colostro (aquela aguinha rala que sai nos primeiros dias antes do leite propriamente dito). Bem, o fato é que até hoje, com quase três meses de vida, Laura nunca teve uma só colicazinha.
Mas, a despeito de todo o poder nutricional e da proteção que o leite materno proporciona, o que me parece mais incrível é o laço que ele cria entre mim e minha filha. As trocas de olhares, o chamego daquela mãozinha sobre o meu peito enquanto adormece com a boca no bico, a barriga com barriga, o calor e a respiração. A amamentação nos matém assim, juntinhas! É maravilhoso observar que os meus seios latejam e começam a chorar a cada instante que Laura, sozinha em seu berço, desperta para mais uma “mamazinha”. Ela não precisa sinalizar, são eles que me avisam: é hora de mamar.
Eu e Laura nem bem começamos nossa curtição e  os conselhos já começaram a pipocar. Uns dizem que não devo deixar a menina mamar assim tão livremente pois ela pode se “viciar” (hahahahaha) e depois “será um custo tirar esse vício”!!! Alguns sugerem a introdução da chupeta para acalmá-la, do contrário, só vai dormir “chupetando” o meu bico. Que privilégio! Antes isso. Uma chupeta livre de bactérias, que não deforma os dentes e que eu posso lançar mão dela a cada suspiro. Outros já vêm logo perguntando se antes de terminar a licença à maternidade tratarei de disciplinar a Livre Demanda. O quê??? Fazer minha filha sofrer por antecipação? Se o sofrimento tiver que vir que seja adiado pelo maior espaço de tempo possível. E para os que querem mesmo saber quando pretendo iniciar o desmame: perguntem à Laura, somente ela poderá dizer quando tem a intenção de recusar a “mamazinha” da mamãe.
Na nossa sociedade, dita moderna, a mulher, com freqüência, sente-se pressionada a desmamar, muitas vezes contra a sua vontade e sem que ela e o bebê estejam prontos pra isso. Existem vários mitos relacionados, tais como as crenças de que o leite da mãe é prejudicial para a criança sob o ponto de vista psicológico, que ela jamais desmama por si própria, e que menino que mama fica muito dependente. Mas o homem é o único mamífero em que o desmame se dá por influência desses fatores socioculturais. Com a Laura, espero que o desmame seja um processo no seu desenvolvimento. A independência é uma parte disso tudo e chega pra todos; para uns, mais cedo; para outros, mais tarde. Minha filha será dependente enquanto ela precisar, e enquanto quiser minha bichinha permanecerá aninhada. Eu, mamífera e mãe disposta a dar o melhor de mim, estarei atenta acompanhando, participando e esperando, naturalmente, o crescimento e a independência da minha Laura. Neste dia, ela estará apta a cortar mais este cordão que nos une, vencendo mais uma etapa de adaptação nesta escola que é a vida. Eu estarei feliz, vendo-a correr para sua individualização.
E, como boa provedora, espero poder doar a ela o meu sangue, do mesmo jeito de quando estivera dentro da minha barriga, porém agora em forma de leite, por muito tempo ainda. Graças a Deus que tudo isso já é, em nosso país, um caso político. Viva o Lula que estendeu minha licença por seis meses. Para quem ainda não se ligou, se liga, existem leis que incentivam e protegem as mães que amamentam os seus filhos (clique aqui).

IMPORTANTE: AS INFORMAÇÕES CONTIDAS NESTE POST SÃO FRUTOS DE LEITURA E REINTERPRETAÇÕES DE UMA MÃE DE PRIMEIRA VIAGEM, PARA ASSEGURAR-SE DE INFORMAÇÕES TÉCNICAS E CIENTÍFICAS É ALTAMENTE RECOMENDADO IR DIRETO ÀS FONTES.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Capítulo II: Aprendendo o beabá

No dia seguinte ao parto, eu olhava para Laura e não cabia em mim de contentamento: aquele bebezinho era todinho meu!!! Tinha a sensação de que minha vida seria dali pra frente um eterno brincar de casinha. Laura permaneceria ao meu lado por um período INDETERMINADO (minha vontade era escrever PARA SEMPRE, mas como dizem que filho a gente cria para o mundo, contentarei-me com um "indeterminado")! Pelo menos por longos oito meses (quer dizer, eu pensava que seriam longos, mas já se passaram dois corridésimos!!), estaríamos grudadas: seis da licença, mais duas férias que deixei acumular pensando em dedicá-los à maternidade.

Ao deixar a Casa de Parto, nós não sabíamos ao certo para aonde iríamos. Nossa casa continuava em obras. Não queria me hospedar com parentes, nem amigos. Queria viver plenamente aquele começo de vida nova, na quietude da minha solidão (claro, para “minha solidão”, leia-se eu, Laura e Wilson). Como eu e ele não temos mãe, nem tia, irmã ou prima mais velha por perto, desde o início sabíamos que não haveria a quem recorrer, nenhuma ajuda externa, nenhum aconselhamento sequer. Sabe como é, né? Avós são excelentes para aqueles momentos em que as novas criaturinhas não param de chorar. Têm sempre uma receitinha milagrosa, uma simpatia, um jeitinho safo de carregar... Mas, pra falar a mais pura verdade, quem me conhece sabe que eu jamais me adaptaria a este esquema “dependência familiar”. É aquela história, assombração sabe pra quem aparece, e pra quem não deve aparecer também. O que vejo várias amigas contar é que por mais que mães e sogras amem e tenham a mais boa vontade acabam criando atritos (inclusive entre elas mesmas) por divergências de opinião. E angu mexido com mais de uma colher de pau acaba desandando.

Ah, neimmmm! Prefiro fazer as coisas do meu jeito a ter que ficar discutindo com pessoas, bem intencionadas (outras nem tanto assim) a me dizerem como devo agir. Sempre fui de quebrar a cabeça e, muitas vezes, a cara também. Mas sempre dei muito valor a tudo o que aprendi e conquistei com muito custo, e, porque não, um bocadinho de dor! Se não há ninguém pra ajudar, o melhor é que ninguém há também pra atrapalhar. Por isso, nossa gravidez e a vida pós-chegada da Laura foram muito bem planejadas. E olha que muita coisa saiu do script, como a famigerada obra (leia-se, o gerenciamento dos pedreiros) e a falta de um local adequado pra ficar nos primeiros dias. Mas, afora isso, basicamente eu e Wilson sabíamos que iríamos ter que dar conta de todo o serviço da casa, além de cuidar de um bebê recém-nascido, diga-se de passagem, arte sobre a qual éramos ambos totalmente inexperientes. Combinamos, desde o início, que ele ficaria por conta do lar e eu me dedicaria cem por cento à Laura, pelo menos nos primeiros momentos. É óbvio que, na realidade, em algumas tarefas eu tenho que ajudá-lo, como passar as roupinhas dela, às vezes, lavar um banheiro, correr um pano na casa, fazer comida. Mas este é um assunto que merecerá um post inteirinho pra ele, um capítulo hiper, super, mega especial: o nosso planejamento familiar.

Bebê a bordo sem bula ou manual

Durante toda a gravidez, eu estudei muito sobre o assunto. Lia artigos acadêmicos, blogs, sites. Sabia a cada semana (dia e, se bobeasse, hora) o que se passava com Laura em seu desenvolvimento. Termos científicos, como tocólise, lanugo, mecônio, e outros, faziam parte de um vocabulário familiar. Contudo, a vida do bebê extra-uterina, eu, protelei e, confesso que me esqueci de pesquisar. Tudo seria pra mim, pra nós, a mais assustadora, mas também a mais instigante, novidade. Noites antes do nascimento, ficávamos imaginando o que faríamos quando, felizes da vida, chegássemos com aquele “embrulho” em casa.

Bem, neném não vem com manual (frase mais que batida, mas deu vontade de colocar). Se viesse, eu leria tudinho (adoro ler manuais de eletro-eletrônicos e bulas de remédio). Mas acho que de nada adiantaria, pois, pelo muito que ouvi dizer, cada criança é de um jeito e cada mãe e pai sabe a melhor maneira de lidar com sua cria. Basta estarem dispostos a ouvir, observar, serenar, agir com a cabeça, mas principalmente, com o coração. Imagina, Laura passara nove meses dentro de mim! Eu brinco que ela é meu pedacinho de carne! E mãe tem o instinto para guiá-la. Saber como pegar, aconchegar, prover, alimentar...? Há meses vínhamos treinando nossa forma de comunicar. E, naturalmente, nós já tratávamos Laura assim, como se deve, um ser dotado de inteligência, desejos e necessidades. Conversávamos muito com ela ainda na barriga e explicávamos toda a nossa situação. Eu pedia que ela fosse boazinha. Que chorasse quando tivesse que chorar, mas que já viesse sabendo o tipo de mãe e pai que iria encontrar.

No livro Nossos Filhos são Espíritos (do qual falei no Relato de Parto), o autor desenvolve um raciocínio interessante: ele diz que o bebê, quanto mais novo, tem uma enorme capacidade de entendimento. Segundo ele, para suportar as limitações do corpo ainda em formação, o espírito traz vivas as lembranças do mundo espiritual, o motivo de estar na Terra e o seu propósito encarnatório, sua bagagem moral e intelectual. E, à medida que vai desenvolvendo o corpo, inversamente, vai se tornando “mais criança”, para, então, aprender tudo de novo. Nós, Wilson e eu, acreditamos nisso. E, cotidianamente, Laura tem nos provado o quanto é capaz de atender aos nossos pedidos e compreender nossas limitações.

É claro que o recém-nascido humano depende dos cuidados dos pais, e ela absolutamente não é diferente. Muito mais que cuidar, é preciso ser mãe e pai. E isso requer muita disponibilidade, física e emocional. É preciso muito afeto, mas também muita disposição e dedicação. É lógico que para o bom desempenho da minha função eu tenho precisado de consultores, como jovens e velhas amigas, cunhadas, médicos, livros, sites, blogs, minhas queridas listas de discussão... Mas tenho a consciência de que, por mais que não sejamos experts, eu e Wilson nos preparamos para nos doar à Laura. E isso é o que mais conta: nossa disposição em ouvi-la, estudá-la, compreendê-la e amá-la. Não pretendemos terceirizar nossa missão.

O caminho tem sido árduo (e isso inclui perder o jogo do Brasil na Copa do Mundo, caso do Wilson que ficou lavando roupas da Laura, enquanto eu a amamentava ou brincava, pois ela exigiu o tempo todo a minha atenção; invariavelmente comer comida fria; tomar banho depois da meia-noite; ficar horas com vontade de fazer xixi...), mas muito compensador. Estamos cansados, mas não exauridos. A cada dia, Laura nos renova. É um mundo mágico, gigante, e estamos apaixonadamente dispostos a vencer cada etapa, cada dificuldade. E, como já disse, é sobre cada uma delas e sobre essas primeiras descobertas que falarei nos próximos post, e irei, assim, tecendo este blog.

Quarto Trimestre de Gestação

A primeira coisa que descobrimos antes mesmo de sair com Laura da Casa de Parto é que, assim como todos os bebês, mesmo com 38 semanas de gestação, ela não nascera pronta! De todos os mamíferos, o bebê humano é o único que, para conseguir sair do ventre da mãe (bípede e, por isso, com a bacia mais estreita que os quadrúpedes), precisa nascer antes de atingir toda sua maturidade. Seria impossível a expulsão natural, pela vagina, por causa do desenvolvimento do perímetro cefálico, se ele nascesse, por exemplo, com doze meses de gestação.

Por isso, em sua maioria, os nossos “fetos extra-uterinos” sentem muito frio (ainda não são capazes de manter a temperatura ideal), espirram e tossem muito (estão a amadurecer o pulmão), sentem cólicas (por falta de amadurecimento do sistema digestivo), precisam ser colocados para arrotar, e vêm com uma série de “defeitos de fábrica”, como Refluxo Gastroesofágico (o que responde pelas famosas golfadas), Reflexo de Moro (pequenos espasmos causados por sustos), Reflexo Gastro-Cólico (uma tal diarréia benigna, que é o esvaziamento do intestino tão logo o estômago recebe novo alimento), além de precisarem chorar para se comunicar.

Quase todos esses nomes eu e Wilson fomos descobrindo à medida que Laura ia nos apresentando os sintomas. Dessa lista toda, escapamos das cólicas (que ela nunca teve, Graças a Deus) e do choro (minha bebezinha é uma anja, ela quase não chora, apenas solta uns resmungos graves e bravos quando não conseguimos captar de imediato sua mensagem, mas é só nos conectar e ela logo sorri!).

De fato, o comportamento dos recém-nascidos é muito variável e depende de vários fatores,
como personalidade, experiências intra-uterinas, o tipo de parto vivenciado, fatores ambientais, incluindo o estado emocional dos pais e, principalmente, o estágio de maturação que ele nasce. E eu acredito que ter estado sozinha com Laura desde o primeiro dia foi positivo no processo desse reconhecimento. A ocasião fez o ladrão e como toda mamífera tenho sabido como lamber minha cria. Foi por meio dessas peculiaridades que acabei descobrindo, por exemplo, a Amamentação por Livre Demanda, a Cama Compartilhada, o uso das Fraldas de Pano e o Colo como Extensão do Útero. Para compreender tudo isso, foi preciso rever conceitos e, principalmente, libertar-me dos preconceitos. Mas, como tudo isso foi fruto da experiência, tenho me sentido segura das minhas escolhas, certa de que poderei revê-las e mudar de rumo, guiada pelas necessidades de Laura.
No próximo post, falaremos sobre como cheguei e porque optei pela Amamentação por Livre Demanda. Até lá.