Alguns ecos...

Alguns ecos: a maioria destes textos é tecida de matéria prima que Laura me oferece, e também das várias leituras a que ela me induz, mas que muitas vezes, introjetadas, não consigo nem mais citar a fonte. Contudo todas elas podem e devem ser acessadas por meio dos meus Gadgets.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Capítulo II: Aprendendo o beabá

No dia seguinte ao parto, eu olhava para Laura e não cabia em mim de contentamento: aquele bebezinho era todinho meu!!! Tinha a sensação de que minha vida seria dali pra frente um eterno brincar de casinha. Laura permaneceria ao meu lado por um período INDETERMINADO (minha vontade era escrever PARA SEMPRE, mas como dizem que filho a gente cria para o mundo, contentarei-me com um "indeterminado")! Pelo menos por longos oito meses (quer dizer, eu pensava que seriam longos, mas já se passaram dois corridésimos!!), estaríamos grudadas: seis da licença, mais duas férias que deixei acumular pensando em dedicá-los à maternidade.

Ao deixar a Casa de Parto, nós não sabíamos ao certo para aonde iríamos. Nossa casa continuava em obras. Não queria me hospedar com parentes, nem amigos. Queria viver plenamente aquele começo de vida nova, na quietude da minha solidão (claro, para “minha solidão”, leia-se eu, Laura e Wilson). Como eu e ele não temos mãe, nem tia, irmã ou prima mais velha por perto, desde o início sabíamos que não haveria a quem recorrer, nenhuma ajuda externa, nenhum aconselhamento sequer. Sabe como é, né? Avós são excelentes para aqueles momentos em que as novas criaturinhas não param de chorar. Têm sempre uma receitinha milagrosa, uma simpatia, um jeitinho safo de carregar... Mas, pra falar a mais pura verdade, quem me conhece sabe que eu jamais me adaptaria a este esquema “dependência familiar”. É aquela história, assombração sabe pra quem aparece, e pra quem não deve aparecer também. O que vejo várias amigas contar é que por mais que mães e sogras amem e tenham a mais boa vontade acabam criando atritos (inclusive entre elas mesmas) por divergências de opinião. E angu mexido com mais de uma colher de pau acaba desandando.

Ah, neimmmm! Prefiro fazer as coisas do meu jeito a ter que ficar discutindo com pessoas, bem intencionadas (outras nem tanto assim) a me dizerem como devo agir. Sempre fui de quebrar a cabeça e, muitas vezes, a cara também. Mas sempre dei muito valor a tudo o que aprendi e conquistei com muito custo, e, porque não, um bocadinho de dor! Se não há ninguém pra ajudar, o melhor é que ninguém há também pra atrapalhar. Por isso, nossa gravidez e a vida pós-chegada da Laura foram muito bem planejadas. E olha que muita coisa saiu do script, como a famigerada obra (leia-se, o gerenciamento dos pedreiros) e a falta de um local adequado pra ficar nos primeiros dias. Mas, afora isso, basicamente eu e Wilson sabíamos que iríamos ter que dar conta de todo o serviço da casa, além de cuidar de um bebê recém-nascido, diga-se de passagem, arte sobre a qual éramos ambos totalmente inexperientes. Combinamos, desde o início, que ele ficaria por conta do lar e eu me dedicaria cem por cento à Laura, pelo menos nos primeiros momentos. É óbvio que, na realidade, em algumas tarefas eu tenho que ajudá-lo, como passar as roupinhas dela, às vezes, lavar um banheiro, correr um pano na casa, fazer comida. Mas este é um assunto que merecerá um post inteirinho pra ele, um capítulo hiper, super, mega especial: o nosso planejamento familiar.

Bebê a bordo sem bula ou manual

Durante toda a gravidez, eu estudei muito sobre o assunto. Lia artigos acadêmicos, blogs, sites. Sabia a cada semana (dia e, se bobeasse, hora) o que se passava com Laura em seu desenvolvimento. Termos científicos, como tocólise, lanugo, mecônio, e outros, faziam parte de um vocabulário familiar. Contudo, a vida do bebê extra-uterina, eu, protelei e, confesso que me esqueci de pesquisar. Tudo seria pra mim, pra nós, a mais assustadora, mas também a mais instigante, novidade. Noites antes do nascimento, ficávamos imaginando o que faríamos quando, felizes da vida, chegássemos com aquele “embrulho” em casa.

Bem, neném não vem com manual (frase mais que batida, mas deu vontade de colocar). Se viesse, eu leria tudinho (adoro ler manuais de eletro-eletrônicos e bulas de remédio). Mas acho que de nada adiantaria, pois, pelo muito que ouvi dizer, cada criança é de um jeito e cada mãe e pai sabe a melhor maneira de lidar com sua cria. Basta estarem dispostos a ouvir, observar, serenar, agir com a cabeça, mas principalmente, com o coração. Imagina, Laura passara nove meses dentro de mim! Eu brinco que ela é meu pedacinho de carne! E mãe tem o instinto para guiá-la. Saber como pegar, aconchegar, prover, alimentar...? Há meses vínhamos treinando nossa forma de comunicar. E, naturalmente, nós já tratávamos Laura assim, como se deve, um ser dotado de inteligência, desejos e necessidades. Conversávamos muito com ela ainda na barriga e explicávamos toda a nossa situação. Eu pedia que ela fosse boazinha. Que chorasse quando tivesse que chorar, mas que já viesse sabendo o tipo de mãe e pai que iria encontrar.

No livro Nossos Filhos são Espíritos (do qual falei no Relato de Parto), o autor desenvolve um raciocínio interessante: ele diz que o bebê, quanto mais novo, tem uma enorme capacidade de entendimento. Segundo ele, para suportar as limitações do corpo ainda em formação, o espírito traz vivas as lembranças do mundo espiritual, o motivo de estar na Terra e o seu propósito encarnatório, sua bagagem moral e intelectual. E, à medida que vai desenvolvendo o corpo, inversamente, vai se tornando “mais criança”, para, então, aprender tudo de novo. Nós, Wilson e eu, acreditamos nisso. E, cotidianamente, Laura tem nos provado o quanto é capaz de atender aos nossos pedidos e compreender nossas limitações.

É claro que o recém-nascido humano depende dos cuidados dos pais, e ela absolutamente não é diferente. Muito mais que cuidar, é preciso ser mãe e pai. E isso requer muita disponibilidade, física e emocional. É preciso muito afeto, mas também muita disposição e dedicação. É lógico que para o bom desempenho da minha função eu tenho precisado de consultores, como jovens e velhas amigas, cunhadas, médicos, livros, sites, blogs, minhas queridas listas de discussão... Mas tenho a consciência de que, por mais que não sejamos experts, eu e Wilson nos preparamos para nos doar à Laura. E isso é o que mais conta: nossa disposição em ouvi-la, estudá-la, compreendê-la e amá-la. Não pretendemos terceirizar nossa missão.

O caminho tem sido árduo (e isso inclui perder o jogo do Brasil na Copa do Mundo, caso do Wilson que ficou lavando roupas da Laura, enquanto eu a amamentava ou brincava, pois ela exigiu o tempo todo a minha atenção; invariavelmente comer comida fria; tomar banho depois da meia-noite; ficar horas com vontade de fazer xixi...), mas muito compensador. Estamos cansados, mas não exauridos. A cada dia, Laura nos renova. É um mundo mágico, gigante, e estamos apaixonadamente dispostos a vencer cada etapa, cada dificuldade. E, como já disse, é sobre cada uma delas e sobre essas primeiras descobertas que falarei nos próximos post, e irei, assim, tecendo este blog.

Quarto Trimestre de Gestação

A primeira coisa que descobrimos antes mesmo de sair com Laura da Casa de Parto é que, assim como todos os bebês, mesmo com 38 semanas de gestação, ela não nascera pronta! De todos os mamíferos, o bebê humano é o único que, para conseguir sair do ventre da mãe (bípede e, por isso, com a bacia mais estreita que os quadrúpedes), precisa nascer antes de atingir toda sua maturidade. Seria impossível a expulsão natural, pela vagina, por causa do desenvolvimento do perímetro cefálico, se ele nascesse, por exemplo, com doze meses de gestação.

Por isso, em sua maioria, os nossos “fetos extra-uterinos” sentem muito frio (ainda não são capazes de manter a temperatura ideal), espirram e tossem muito (estão a amadurecer o pulmão), sentem cólicas (por falta de amadurecimento do sistema digestivo), precisam ser colocados para arrotar, e vêm com uma série de “defeitos de fábrica”, como Refluxo Gastroesofágico (o que responde pelas famosas golfadas), Reflexo de Moro (pequenos espasmos causados por sustos), Reflexo Gastro-Cólico (uma tal diarréia benigna, que é o esvaziamento do intestino tão logo o estômago recebe novo alimento), além de precisarem chorar para se comunicar.

Quase todos esses nomes eu e Wilson fomos descobrindo à medida que Laura ia nos apresentando os sintomas. Dessa lista toda, escapamos das cólicas (que ela nunca teve, Graças a Deus) e do choro (minha bebezinha é uma anja, ela quase não chora, apenas solta uns resmungos graves e bravos quando não conseguimos captar de imediato sua mensagem, mas é só nos conectar e ela logo sorri!).

De fato, o comportamento dos recém-nascidos é muito variável e depende de vários fatores,
como personalidade, experiências intra-uterinas, o tipo de parto vivenciado, fatores ambientais, incluindo o estado emocional dos pais e, principalmente, o estágio de maturação que ele nasce. E eu acredito que ter estado sozinha com Laura desde o primeiro dia foi positivo no processo desse reconhecimento. A ocasião fez o ladrão e como toda mamífera tenho sabido como lamber minha cria. Foi por meio dessas peculiaridades que acabei descobrindo, por exemplo, a Amamentação por Livre Demanda, a Cama Compartilhada, o uso das Fraldas de Pano e o Colo como Extensão do Útero. Para compreender tudo isso, foi preciso rever conceitos e, principalmente, libertar-me dos preconceitos. Mas, como tudo isso foi fruto da experiência, tenho me sentido segura das minhas escolhas, certa de que poderei revê-las e mudar de rumo, guiada pelas necessidades de Laura.
No próximo post, falaremos sobre como cheguei e porque optei pela Amamentação por Livre Demanda. Até lá.

2 comentários:

  1. Continuo seguindo o seu relato Laura. Que coisa boa ela tera quando puder ler!!! Nao vejo a hora de estar ai e segura-la.

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  2. Menina, é isso aí... nada de bula ou receita pronta...cada ser tem sua peculiaridade e cada mãe e pai sabem o que sua cria demandam. Ainda bem que estamos abertas à Amamentação Por Livre Demanda, colo e outras coisas... Espero que contribuamos para que as próximas gerações encarem a maternidade com mais naturalidade...tenho amigas qeu ainda temem "perder a vida". Não sabem o que ganhamos ao nos tornarmos mães (e pais)...

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